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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre
Freguezia da Cidade (p. 104-105)

Não podemos calar os nomes de alguns cidadãos que, como José Bento, muito fizeram em pról da prosperidade de Pouso Alegre, são elles:
O cônego João Dias de Quadros Aranha, alma grande, caracter austero, coração magnânimo, onde só tinham guarida os sentimentos nobres e generosos.
Foram taes os actos de virtude e patriotismo que praticou durante a sua longa existência, que mereceu de seus concidadãos a mais elevada estima, as quaes viram no venerável sacerdote o typo sublimado do verdadeiro apostolo de Christo.
Desempenhou com intelligencia e critério diversos, inclusive o de deputado á assembléa geral.
O coronel Julião Florencio Meyer, honrado commerciante, muito bons serviços prestou á cidade e á causa publica no desempenho dos diversos cargos de que revestiu a confiança do governo e o voto popular. Sua pátria, a Bélgica, teve nelle um filho que soube honrar a terra que lhe foi berço, e que na pátria adoptiva, que amou com o fervor de um bom patriota, deixou um nome honrado ligado á importante família que aqui constituiu.
Dia a dia, Pouso Alegre conquistando mais um nome para os fastos de sua historia:- ainda ha bem pouco tempo daqui sahiu para occupar o fastígio do poder estadoal, o eminente mineiro e distincto clinico nesta cidade Dr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, cujos serviços e influencia política são sobejamente conhecidos por todos.
Padre José Dias de Quadros Aranha
Acervo do MHMTT

Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre

Freguezia da Cidade (p. 101-104)

Quer na imprensa, quer na tribuna, o padre José Bento tornou-se celebre; todas as vezes que se fazia ouvir da tribuna parlamentar, o auditório, suggestionado, applaudia o com enthusiasmo.
A este benemérito da pátria, a este brazileiro distincto, teve Pouso Alegre grande parte de sua prosperidade.
Mas a sorte avara quis afinal que este grande homem, viesse a ter um trágico fim, que cobriu de luto Pouso Alegre, e encheu de consternação a sua população!
Das Ephemerides mineiras, na data de 8 de Fevereiro de 1844, extrahimos o seguinte:
“Na tarde deste dia, e quando regressava á sua fazenda- cerca de dois kilometros da cidade, então Villa de Pouso Alegre- morre assassinado o senador Padre José Bento Leite Ferreira de Mello, nascido a 6 de janeiro de 1785 na villa que é hoje a cidade da Campanha.
O bárbaro attentado, a principio attribuido a inimigos políticos, foi na verdade determinado por questões suscitadas sobre propriedades de terras entre o senador José Bento e antigos protegidos seus, auctores do crime, um dos quaes era afilhado da victima.
Ferreira de Mello era filho do sargento-mór José Joaquim Leite Ferreira do Mello e de D. Escholastica Bernardina de Mello. Fez seus estudos em S. Paulo, residindo com o bispo Dom Matheus, e alli recebendo ordens sacras.
Creada a Freguezia de Pouso Alegre (1810), a cuja sede fez consideráveis serviços uteis ao embellezamento da povoação, tirou em concurso a respectiva vigararia collada, recebendo pouco depois também a nomeação de vigário da vara da comarca e mais tarde de cônego honorário da Sé de São Paulo, e o habito e commenda da Ordem de Christo.
Desde os prodromos do movimento nacional para a Independência, revelou suas idéas liberaes adiantadas,   trabalhando activamente para seu triumpho, o que lhe foi abrindo as portas das posições políticas. Foi eleito a 21 de Setembro de 1821 membro da primeira Junta do governo provisório em Minas e depois deputado á Assembléa Geral  nas três primeiras legislaturas e senador do Império, escolhido a 8 de Agosto de 1834 e tomando assento a 13 do mesmo mês na camara vitalícia. No anno precedente, e pela manhã de 23 de Março, tendo sido na véspera á noite deposto em Ouro Preto o governo legal por uma sedição militar, o vice-presidente da província e o padre José Bento, membro do Conselho do Governo, foram presos e levados para fóra da cidade por uma escolta de revoltosos, sendo soltos em Queluz pelo povo da localidade, onde aquella sedição não tivera echo.
Anteriormente (7 de Setembro de 1830), fundara o senador José Bento uma typographia em Pouso Alegre, então simples arraial, ahi publicando o Pregoeiro Constitucional, primeiro periódico que appareceu no Sul de Minas, e depois o Recompilador Mineiro, em ambos defendendo com energia e dedicação os princípios liberaes.
Sua attitude na revolução parlamentar da maioridade foi de mais salientes. Sendo um dos seis signatários do projecto para aquelle fim apresentado a 13 de Maio de 1840, foi elle quem, a 22 de Julho do mesmo anno, com vehemencia de suas enérgicas convicções, fallou ao povo de uma das janellas do senado, concitando-o para a victoria da medida anti- constitucional que seu patriotismo considerava no entanto salvadora da nação.
No movimento revolucionário de 1842, em Minas, sua co- participação foi menos efficaz e ostensiva. Não obstante, em nada diminuía a grande influencia que exercia no grêmio de seu partido e o prestigio que o cercava como chefe liberal dos mais considerados e influentes.
Homem de vontade forte, intelligente, activismo, partidista extremado, não fugiu á responsabilidade de sua posição, leal e franca em quaesquer circumstancias. Si possuisse instrucçao menos limitada, desenvolvendo proporcionalmente suas incontestáveis aptidões administrativas e parlamentares, ter-se hia engrandecido muito no sacrário político do seu tempo. Ainda assim, o nome senador José Bento Leite Ferreira de Mello figura de modo notavel nos anaes brazileiros, especialmente no decado que se conta de 1834 até o dia do seu trágico passamento.

Senador José Bento
Acervo do MHMTT


Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre
Freguezia da Cidade (p. 94-98)


Na instrucção pública, Pouso Alegre occupou sempre um lugar de honra entre as cidades sul-mineiras.
Em 1840, foi creada, pela lei mineira de 6 de Outubro uma cadeira de latinidade.
Ainda em 1874 (veja-se o Almanack sul-mineiro deste anno) aqui existiam os collegios de São Sebastião, onde se leccionava as primeira lettras e estudos, preparatórios ao sexo masculino e o de N. Sra. Das Dôres , onde se educava e instruía com esmero a mocidade feminina; e além destes estabelecimentos duas aulas de instrucção primaria para ambos os sexos, e outra de latim e francez, pagas pelos cofres provinciaes.
Depois foi fundado o collegio Santa Cruz, internato e externato para o sexo masculino. Mais tarde foi creado o lyceu Pouso Alegrense, o melhor e mais importante estabelecimento de ensino que houve no sul de Minas, fundado pelos eméritos educadores José Gomes dos Santos Guimarães, Antonio Francisco Furtado de Mendonça filho e Francisco Ribeiro Pinto, auxiliados por habilíssimos professores.
Houve mais o collegio Mendonça, fundado pelo illustradissimo pedagogo Antonio Francisco Furtado de Mendonça Filho.
Este notavel estabelecimento foi transferido para Poços de Caldas em 1892, tendo sido vendido a outro por fallecimento dos eu fudador, a 15 de Fevereiro de 1894.
Ao lembrar o infausto acontecimento, não podemos deixar de dizer, embora ligeiramente, quem foi Mendonça Filho, cuja memória ainda hoje é venerada com maior acatamento pelos seus amigos e discípulos.
Mendonça Filho foi um desses espíritos talhados para o magistério. Intelligencia robusta, caracter immaculado, dedicação sem limites. Conhecimentos profundos. 
Foi ele o maior propagandista da instrucção publica no Sul de Minas, o seu nome aureolado brilhará sempre a par dos beneméritos da pátria como emérito educador da mocidade, que por tantos annos guiou atravez dos labyrinthos da sciencia, com um amor e uma dedicação pouco communs.
Na Villa de Poços, periódico que se publica em Poços de Caldas, encontramos no n. 36, de 23 de fevereiro de 1894, diversos esboços biographicos commemorando o dia do passatempo do distincto educador, elaborado por alguns daquelles que tiveram a dita de conhecer de perto o illustre morto.
A leitura de cada um desses artigos desperta na alma do leitor um sentimento de admiração, sympatia e respeito por aquelle que na terra se chamou Mendonça Filho, e que hoje descança da nobre missão que tão bem soube desempenhar, deixando no coração de seus amigos e discípulos a mais profunda saudade.
Depois deste importante estabelecimento, foi creado o externato Pousoalegrense, sob a direção dos distinctos professores Alberto da Silveira Braga e Joaquim Queiroz Filho, tendo ultimamente ficado a cargo deste ultimo que ainda o mantem.
No dia 8 de setembro de 1899 inaugurou-se com grande pompa, no edificio onde funccionou o collegio Mendonça, o Seminario Episcopal, sob os auspícios do futuro bispado sul-mineiro.
Depois da missa houve benção do estabelecimento pelo Rev.Con. José Paulino de Andrada. Foi uma festa que concorreram todas as classes da população Pousoalegrense, e por entrevivas de enthusiasmo, discurso e flôres foi inaugurado este importante estabelecimento de educação, que já está funcionando.
Classificado em “Pequeno Seminario”  ou “Collegio Diocesano do Bispado Sul-Mineiro” nele se preparam os alumnos, não só para o curso superior do Seminário Maior da nova Diocese, mas como também para as Academias e Faculdade da República.
O ensino preparatório abrange todas as disciplinas da instrucção primaria e secundaria de accordo com os methodos da moderna pedagogia.
Habillissimos professores, ecclesiasticos e seculares, formam o corpo docente do estabelecimento.
A esforços do illustradissmo vigário da freguesia, cônego José Paulino de Andrada, hoje muito digno visitador diocesano, se deve a creação do Seminário.

A idéa da ovação do Bispado sul-mineiro é também exclusivamente sua.
No glorioso afan de angariar donativos para a fundação do bispado, tem o illustre sacerdote manifestado uma actividade e uns tinos raros. Enfrentando com a crise que reina por toda parte, tem elle, apesar de mil contrariedades, obtido donativos importantes, que já foram applicados nas obras da matriz para que possa servir de cathedral, na compra do edifício e terrenos do Seminario e outras compras de prédios para o patrimônio do bispado.
É digno dos maiores encômios o esforçado e incansável sacerdote pelo zelo e dedicação que tem manifestado em prol da causa que esposou.
Além do Seminario, existem duas escolas publica para o sexo feminino, duas para o sexo masculino, e uma aula mixta.
Os pouso-alegrenses são amantes decididos das bellas artes. Não há logar no Sul de Minas, onde a musica não seja cultivada.
Seminaristas- Colegio Diocesano- 1905
Acervo do MHMTT

Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre

Freguezia da Cidade (p. 92-94)

Pouso Alegre já teve uma época em que a industria fabril começou a ser ensaiada: José da Cruz Alvarenga e Mello aqui estabeleceu uma pequena fabrica de chapéos, mas, infelizmente teve de fechar-se.
Para augmento da vida própria da cidade tem faltado a iniciativa particular.     
Bem sabemos que esta falta é devido actualmente á crise medonha que atravessamos:- os capitães são retrahidos, e a industria morre à míngua de recursos; não deve porém, estar o longe o dia que Pouso Alegre terámuitas outras cidades do Sul de Minas, a sua época de properidade industrial: é uma questão de tempo.
Nas margens do Mandú e do Sapuchaymirim encontra-se excellente barro de telha, com que as olarias existentes fornecem o material necessário para as construcções da cidade.
As olarias só se occupam do fabrico de tijolos e telhas curvas; mas o barro presta-se perfeitamente para o fabrico de telhas francezas e outras obras da cerâmica.
Um curtume regularmente montado explora, com algum resultado a industria dos couros.
A colônia Francisco Salles propriedade do Estado, creada pela Lei n. 150 de 20 de julho de 1896, já se acha funccionando na antiga fazenda da Faisqueira, e há de trazer, por certo, grandes benefícios para a cidade.
Existem dentro do perímetro da cidade, assim como em algumas fazendas nas proximidades, algumas plantações de uvas que fornecem um vinho bem regular, cujo fabrico, sendo melhorado, pode dar um producto que rivalise com os vinhos nacionaes de primeira qualidade.
Tambem, de longa data, se fabrica chá de boa qualidade, embora em pequena escala; e em menor escala ainda, vem a produção de cêra.
Nos quintaes encontra se grande variedade de fructas:- a larangeira,o pecegueiro, a jabuticabeira, a nogueira, e muitas outras dão aqui em abundancia fructos muito saborosos.
As hortaliças de toda a espécie encontram aqui um clima muito aperfeiçoado.
Cultiva-se na freguezia a cidade a canna, o fumo, o café e toda a espécie de cereais; exporta-se além destes productos, polvilhos, farinha, queijos, gallinhas, gado e cevados.
O commércio em Pouso Alegre é bastante animado, e gosa de muito conceito na Praça do Rio de Janeiro e na de S. Paulo, com as quaes tem as suas transacções mais importantes.


Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.
 

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre

Freguezia da Cidade (p. 91-92)

Devido à inclinação natural do terreno, as águas são facilmente escoadas em toda cidade; e também, graças a povosidade do sub solo, após as chuvas ainda, ainda as mais prolongadas, com um ou dois dias de sol, as ruas ficam completamente enxutas.
Em alguns pontos da cidade o alinhamento das casas não é perfeito; nem outra cousa se devia se esperar de uma cidade que foi crescendo aos poucos, sem obedecer a um plano geral de alinhamento.
A patriótica Camara Municipal tem remediado alguns defeitos, e envida constantes esforços para melhorar e embellezar a cidade.
Ultimamente foi prolongada uma das ruas principaes até os fundos da estação  da estrada de fero, o que custou não pequenas desapropriações. Também o Largo do Rosário foi augmentado, e a camara pretende ajardinal-o.
Pouso Alegre, assim como todas as cidades sulmineiras, não possue ainda uma rede de esgotos.
O abastecimento d’agua potável é muito defficiente: dois chafarizes apenas fornecem uma parte insignificante do necessário consumo.
A maior parte da água para os usos domésticos é fornecida por cisternas que quase todas as casas possuem, tendo algumas dellas, fontes nos quintaes que fornecem água pura e crystallina.
Em princípios do anno passado, mandou a camara proceder aos estudos do projecto de abastecimento d’agua, tendo em vista utilisar se de um e abundante manancial, que dita seis kilometros do centro da cidade.
Devido ao péssimo estado do cambio sobre que teve de basear-se o custo do material, o orçamento elevou-se a uma cifra considerável, que não permitte actualmente levar a effeito este importante melhoramento.
Dentro do perímetro da cidade existem pequenos mananciaes, dois dos quaes abastecem os chafarizes existentes, não tendo sido ainda aproveitadoo maior de todos elles,  o que seria de grande vantagem, podendo não só fornecer água á cadeia, como ainda abastecer três novos chafarizes.
Ponte sobre o Rio Mandu- 1893
Acervo do MHMTT


Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Muitas Histórias

Parte Histórica- Pouso Alegre

Freguezia da Cidade (p. 88-90)

Além da matriz, possue a cidade uma pequena capella dedicada á santa Cruz, onde todos os annos se faz uma festa em acção de graças e que é muito concorrida. A capellinha está colocada no solaes do morro do cemitério, donde a vista se dilata por um horisonte vastíssimo.
Igreja de Santa Cruz (ao lado do Cemitério velho)- 1880
Acervo do MHMTT


No Largo do Rosario, uma das praças mais bellas da cidade, existio outr’ora a capella que lhe deu. Foi demolida há poucos annos para ser construída outra em melhores condições e em logar mais apropriado; mas até agora existem apenas os alicerces da nova capella e minguados recursos para levar a effeito o restante da construcção.

Parque (Largo do Rosario)- 1907
Acervo do MHMTT

Neste largo, também se vê a um lado a antiga Casa da Misericordia, que durante alguns annos prestou reaes serviços á pobresa desvalida.
Foi doação do finado coronel José Antonio de Freitas Lisboa, cujos piedosos sentimentos acharam echo nos corações generosos dos pouso-alegrenses , que durante algum tempo algum tempo auxiliaram á medida de suas forças o pio estabelecimento, que teve regularmente montado e obteve licença, por decreto do governo imperial, para possuir bens de raiz até o valor de sessenta contos.
Deste padrão de gloria, hoje mais do que a memória, pois a casa foi vendida e acha-se completamente transformada.
Ainda há nem pouco tempo o velho edificio, já muito arruinado, parecia implorar da caridade publica o seu perdido prestigio para de novo socorrer a pobresa enferma; pelas friuchas das paredes arruinadas o sibilar do vento fazia lembrar os gemidos d’aquelles que além de enfermos ainda lutam com a miséria.
O sentimento da caridade, porém, não se apagou nos corações bemfazejos dos pouso-alegrenses: fechou-se um estabelecimento da caridade, mas os corações generosos não se fecharam aos que precisam mendigar os meios de sua subsistência.
O cemitério acha-se collocado no alto de uma collina, em logar aprasivel, dominando toda a cidade.
No centro, o grande cruzeiro campeia solitário, rodeados pelos moumentos onde repousam as cinzas de muitos que concorreram para o engrandecimento de Pouso Alegre.
E’ fechado por muros de adôbos com pilastras assentadas sobre alicerces de pedra.
Quase que a expensas dos cofres provinciaes foi construído o cemitério, sendo encarregado das obras o fallecido José Ignacio de Barros Cobra; a sua conclusão, porém, deve se aos esforços do cônego Vicente, que para este fim promoveu uma subscripção popular. O pequeno cemitério que até então existia achava se completamente arruinado.
Cemitério Velho- Desativado em 1917
Acervo do MHMTT

No pequeno largo, próximo a matriz, encontra-se o Mercado.
E’ um edificio amplo, sem luxo, elegante e de solida construcção. A estrutura repousa sobre amplas arcadas de tijolos e o pavimento eleva-se cerca de um metro acima do nível do chão.
Nas fachadas lateraes, dous passadiços ladrilhados de tijollos e separados do pavimento por uma grade de madeira, servem para a descarga e para a venda de gêneros que não sejam permittidos no interior do edificio.
O mercado funcciona sómente aos domingos, afim de deixar livre aos que abastecem, isto é, á pequena lavoura , o resto da semana.
E’ um mercado muito farto em gêneros de primeira necessidade, e presta reaes serviços á população, que ali se se abastece do necessário para o consumo da semana.
Mercado Municipal- 1900
Acervo do MHMTT

Além dos edifícios mencionados tem a cidade mais de 499 casas, na maior parte bem construídas, e algumas caprichosamente acabadas, distribuídas em 5 peças e 18 ruas.
A população está calculada, approximadamente em 2,600 almas.
A cidade é illuminada a petróleo, queimado em lampeões belgas abrigados em caixas de vidro sobre postes de madeira.
As ruas não são calçadas, salvos pequenos trechos em algumas dellas, com pedra tosca; algumas, porém, são macadamisadas com cascalho grosso, e possuem sargetas de pedra para o escoamento das águas pluviaes.
Avenida atras da Catedral- 1880
Acervo do MHMTT

Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Muitas historias

Parte Histórica- Pouso Alegre

Freguezia da Cidade (85- 88)


Sahindo desta rua, que termina no largo da Matriz, (praça Senador José Bento) depara-se a um lado com a casa da Câmara (fazendo corpo com os prédios particulares), cuja apparencia nada tem de notavel e facilmente poderá passar desapercebida como edifício publico, entre os prédios contíguos: comtudo, é um edifício asseiado e tem além de outros commodos, uma boa sala de sessões, figurando no logar de honra um retrato a olleo do benemérito Presidente Estado, Dr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, mandado fazer expensas da câmara e inaugurado solemnemente no dia 8 de setembro do anno passado, para commemorar o aniversario natalício do illustre estadista.
Neste largo, por entre duas alas de cazuarinas e cinamouros, destaca-se ao fundo a matriz.
E’ um templo vasto e de solida construcçao.
Duas elegantes torres terminando em terraços circundados de ameias, dão ao edificio um aspecto agradavel e de imponencia.
O adro ainda não está acabado, faltando para a sua conclusão o ladrilho e o gradil.
Exteriormente não é um templo onde se possa admirar lavores artísticos, nem mesmo onde se encontre unidade architectonica; nem tal se devia esperar de um templo que na sua construcção não obedecem a um plano único: feito aos poucos, interrompendo a cada momento as suas obras, por falta de recursos, foi se reparando o que estava feito e fazendo o que era possível com os exíguos recursos que se podia lançar mão.
O seu interior, porém, é sumptoso:- vastas escadas de madeira, artisticamente trabalhadas, sustentam a nave do templo; o tecto, que vem apoiar se sobre os arcos das tribunas, é vistoso e bem acabado.
A capella-mór, posto que não seja rigorosamente artística, é bem ornamentada e o tecto prima pela sua elegância.
A Capella do Santissimo é de extrema simplicidade, mas é bem enfeitada.
A sachristia é bastante espaçosa e muito asseiada.
A’ entrada do templo está a capella do baptismo onde se vê uma rica pia de mármore com pedestal.
Ao lado esquerdo do templo, correspondendo ao meio da nave, vê-se um rico altar de mármore artisticamente burilado e de fino gosto, onde se venera o glorioso martyr S. Sebastião. Foi doado ano anno passado, pela família Meyer, em cumprimento de uma das ultimas vontades do seu fallecido chefe, o prestimoso e honrado cidadão Julião Florencio Meyer.
E’ padroeiro da freguezia o Senhor Bom Jesus.
Deve-se aos esforços do fallecido vigário, cônego Vicente de Mello Cezar, o grande impulso que tomaram as obras da matriz durante a sua administração; pois além de sacerdote exemplar, votava um interesse illimitado pelo engrandecimento do templo, cujas obras não chegou a concluir porque a morte veio roubal-o, quando com mais ardor se empenhava no religioso afan.
Jámais se apagará da memória dos pouso-alegrenses o nome d’aquelle, que durante alguns annos foi seu guia espiritual; e derramando o balsamo consolador da religião foi um sacerdote que honrou o clero brasileiro, durante o curto espaço que peregrinou entre os vivos.
Não menos louvável é o digno vigário actual, cônego José Paulino de Andrade pelo zelo e dedicação que tem mostrado no prosseguimento das obras da matriz; pois não só fez grandes reformas na capella-mór, como ainda mandou fazer a pintura geral que muito honra o artista que a executou, pela sabia combinação de cores e pela perfeição do trabalho.
Alli introduzio também, o illustre sacerdote, a illuminação a gaz acetyleno, que é, sem duvida , superior a antiga illuminação a petróleo.
A matriz está destinada a ser cathedral do futuro bispado do sul de Minas, ultimamente decretado pela Santa Sé; é de presumir-se, pois, que dia a dia a matriz seja dotada com novos melhoramentos, mormente quando por ella se interessar todos os fieis que desejam a realização do bispado.    

 
Catedral 1880
Acervo do MHMTT

Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.


terça-feira, 22 de maio de 2012

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre (p.83-85)

Da Estação, subindo pela rua principal, passa-se á cadeia no largo do mesmo nome. O edificio consta do pavimento terreo onde estão as prisões, e do pavimento superior onde funccionam o jury e a policia.
Grossas paredes construidas de taipas e forradas de pranchões no interior das prisões, cercam o pavimento inferior, emquanto que as paredes do pavimento superior são construidas de adobos.
Ao fundo, o edificio ramifica-se em duas alas, ligadas por um muro, que fecham uma area que dá aceso a quatro prisões.
Apezar de não ser uma construcção antiga, a cadeia resente-se da necessidade de varios melhoramentos, que tem sido introduzidos, nos tempos modernos, em edificios congeneres.
Entre as maiores necessidades salienta-se a falta de agua e esgotos. Embora a limpeza da cadeia seja feita todos os dias, removendo para longe as materias fecaes, etc.; não quer isto dizer que as mesmas não estejam constantemente em deposito, prejudicando não só a saude dos presos, como ainda infeccionando a cidade.
De ha muito que o governo do Estado pretende remediar estes males, e para este fim já mandou fazer o respectivo orçamento; espera, porém, que a municipalidade lhe possa ceder parte da agua; quando esta tiver de proceder ao abastecimento da cidade.
Cadeia Publica- Década de 20
Acervo do MHMTT
Sahindo do largo da Cadeia e subindo ainda pela rua principal, chega se em frente ao Theatro Municipal. No logar em que se acha o theatro, a rua tem a largura das grandes avenidas e o edificio, apesar da sua modesta apparencia, não deixa de sobresahir entre as construcções que lhe ficam proximas.
O frontespicio não tem senão lavôres de architectura, mas tem bonita apparencia.
Tem, além da platéa, duas ordens de camarotes e uma galeria. Na frente tem uma sala e um saguão ladeado de bofêtes. A ornamentação é muito singela e a pintura muito simples.
Com algumas modificações tanto no interior como no exterior, póde tornar-se um dos melhores theatros no Sul de Minas.
Não possue sahidas lateraes, o que constitue um grande incoveniente no caso de incendio ou de tumulto.
A construcção do theatro data de 1873, épocha em que se fundou a sociedade- União e Progresso- com o fim de construir um theatro aonde a Associação Dramatica Pouso Alegre, mantida por diversos moços de talento, podesse melhor desenvolver a reconhecida aptidão dos actores.
Em 1875, achava-se concluido o theatro, tal como pôde ser acabado pela patriotica associação, que mais tarde fez delle doação à municipalidade , aonde esta tem gasto não pequena somma nas modificações e reparos que nelle tem feito.   

Theatro Municipal- 1918
Acervo do MHMTT


Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Muitas histórias

Parte Histórica- Pouso Alegre (p. 79-83)
Este homem que, longe dos centros urbanos civilisados, prosperou à custa do seu trabalho,  teve a idéa de ser grato aquelle donde dimanam todas as felicidades terrestres; e querendo plantar nestas paragens incultas arvore fecunda da religião, fez, no fim do século passado, doação do terreno necessário para edificação de uma capella dedicada ao Senhor Bom Jesus.
Decorreram alguns annos, até que em 1795, mais ou menos, a expensas de alguns moradores visinhos, foi construída a pequena capella; e não se sabe si João da Silva chegou a ver realisada a sua idéa.
Concluida a capella, foi nella celebrada a primeira missa que houve neste logar pelo parocho de S. Anna do Sapuchay, padre Francisco de Andrade Mello, que desde então ficou como capellão particular.
Até 1799, o nascente povoado era conhecido pelo nome de Mandú.
Foi, mais ou menos, nessa epocha que o governador de São Paulo, D. Bernardo Josée de Lorena, conde de Sarzedas, tendo sido transferido para a capitania de Minas Geraes, fez pouso na nascente povoação, onde veiu ao seu encontro o juíz de fóra da Campanha, Dr. José Joaquim Carneiro de Miranda, que também pela primeira vez visitava estas paragens.
Surprehendidos pela belleza do logar que os encantava, um daquelles personagens, querendo dar á povoação um nome que estivesse mais em harmonia com a natureza da localidade, dissera:- isto deveria chamar-se Pouso Alegre, e não Mandú; e conta se que dahi lhe veio a denominação que ainda hoje conserva.
Por alvará de 6 de Novembro de 1810, foi Pouso alegre elevado a freguezia, e 21 annos depois a villa, pela lei de 13 de Outubro de 1831.
A lei provincial, n. 433, de 19 de outubro de 1848, elevou á categoria de cidade.
Sen termo, depois de pertencer ás comarcas do Rio Verde, Sapucahy e Jaguary, foi pela lei mineira, n. 11 de 13 de Novembro de 1891, classificado em comarca.
O terreno da cidade é limitado por uma linha que começa, rio abaixo, áquem do corrego do Tanque no Mandú; e subindo para a rua da Palha, segue a um lado desta, ficando a mesma dentro do perímetro, até encontrar o Tanque; e subindo por este córrego até á cabeceira, contorna depois o espigão, e vai encontrar a cabeceira do corrego que divide terras do capitão Candido de Barros e outros; desce deste ponto a encontrar a porteira das Taipas, e daqui ao Rio Mandú, e por este acima finalisando onde começa esta demarcação.

O terreno fechado por esta linha deve ter approximadamente quatro kilometros quadrados.
Mas voltemos à cidade: analysemos de passagem os seus edificios, consideremos os seus melhoramentos mais importantes, e notemos as suas necessidades e os seus defeitos:
Eis-nos junto aos trilhos da Estrada de Ferro Sapuchay, que, depois de atravessar o Sapuchaymirim, pouco abaixo do Mandú, vem cortar o extremo sul da cidadenas proximidades deste rio, por cujo valle vai subindo em demanda da fronteira de S. Paulo.
Foi no dia 25 de Março de 1895 que aqui chegou o trem inaugural, trazendo a seu bordo a directoria da Estrada, representantes do governo de Minas, da imprensa da Capital Federal, e grande numero de convidados pela directoria e pela comissão dos festejos com que a Camara Municipal deliberou commemorar este notavel acontecimento.
A Estação é uma construcção singela, em forma de chalet; tem uma plataforma regular, mas pequena para conter a grande massa de povo, que quasi sempre ahi se agglomera por ocasião da chegada dos trens. Tem um pequeno armazem para deposito de mercadorias, dois gabinetes, communicando-se para o agente e telegraphista, separados do armazem por um corredor que serve de sala de espera; e accomodações no restante do edificio para a familia do agente.

O terreno das dependencias da estação é muito acanhado, e não póde comportar mais do que o desvio e o virador de machinas que alli se acham construidos.
As construcções de particulares já encurralaram a estação, de maneira que se no futuro houver necessidade e augmentar o terreno, não será senão á custa de desapropriações dispendiosas.
O terreno das dependencias da estação de uma cidade como Pouso Alegre, cujo movimento tende sempre a augmentar, precisa ser amplo para facilitar o movimento de carroças, tropas, carros de boi, cavalleiros, e carros de luxo; e bem assim a manobra dos trens.
Perto da estação já vão apparecendo alguns chalets de bom gosto, destoando do estylo antiquado da maior parte das construcções da cidade.
Tambem para afeiar o logar, vê-se a um lado um terreno de fórma retangular cercado por uma grade de tijolos, tendo em um de seus angulos um enorme arco, que na sua construcção não obedeceu senão ás leis do equilibrio; e consta que este terreno estava destinado para a edificação de um grande hotel, casa para negocio ou cousa que o valha; mas que afinal, ao seu dono tendo que retirar-se, alli deixou aquella especie de ruinas, dando ao logar um aspecto tristonho e de abandono. Estas obras inacabadas, perto de um estrada de ferro, causam má impressão e produzem verdadeiros contrastes:- aqui a locomotiva symbolisando o progresso, alli as ruinas symbolisando o atraso.    
Estaçao da RMV

Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.

*Escrito como no original.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Muitas Histórias




Parte Histórica- Pouso Alegre (p. 77-78)

Os morros circumvisinhos formam em torno da cidade como que uma vasta conha, onde a natureza e a mão do homem plantaram o poético jardim que em vão tentamos esboçar.

Ao longe, na orla do horisonte extenso, os picos altivos das serras distantes, semelhantes a esphinges colossaes, fitam a rainha do Mandú, que sobranceira os contempla. Orgulhosa do seu sollo primoroso!
Quer a vista se alongue pela vastidão do horizonte, ou baixe a mergulhar-se na profundeza dos valles, o quadro é sempre animado e surprehendente.
Por qualquer lado que seja observada, a cidade se ostenta sempre radiante da sua formosura.
Quando por occasião das enchentes, o Mandú e o Sapucahymirim, confundindo as suas aguas, alagam o extenso vargedo que os separa, a cidade parce mirar-se no espelho crystallino das aguas, vaidosa dos seus dotes naturaes!...
Sinuoso e manso desce o Mandú, e vai confundir as suas aguas com as do Sapucahymirim, que o recebe a dois kilometros da cidade, donde se avista grande extensão das suas fertilíssimas margens.
O Sapucahy grande, que passa a seis kilometros da cidade, recebe por sua vez o Sapucahymirim, um dos seus principaes affluentes.
Estes rios, cujas aguas já outr’ora foram sulcadas por barcas de capacidade de mil arrobas, estabelecendo communicação entre os municipios de Pouso Alegre, Itajubá, Alfenas e Campanha, viram desapparecer a navegação depois da invasão das estradas de ferro; a maior utilidade que póde ter um rio, sob o ponto de vista economico, cahiu em completo abandono: succedeu á celeuma  alegre dos barqueiros conduzindo as pesadas barcas, o canto monotono do solitario pescador, vagando na sua tosca piroga!
A doze kilometros corre o Cervo, cujo valle tornou-se famoso pela sua extraordinária uberdade, compensando com vantagem a lida afanosa da lavoura.
Além de serem margeadas por terrenos de prodigiosa uberdade, têm estes rios a vantagem de serem muito piscosos:- é extraordinária a quantidade de peixe que se vende na cidade por occasião dasd enchentes; os peixes sahindo do leito do rio invadem as margens alagadas, onde são facilmente apanhados.
A tantos benefícios que recebeu da natureza deve Pouso Alegre a sua prosperidade, que parece tornar-se cada vez mais lisongeira.
Activo e trabalhador, e auxiliado pela riqueza do sólo, João da Silva
É crença tradiccional que quem primeiro habitou as margens do Mandú fui um aventureiro de nome de João da Silva que, attrahido pela excelente qualidade das terras, aqui formou as suas roças, que produziram abundantes colheitas.
cercou-se de abundancia e prosperidade.


Pouso Alegre 1855- Tela de autoria de José Fernandes de Souza Filho
 Pertencente ao Acervo do MHMTT


Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.

*Escrito como no original.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Muitas Histórias

Parte Histórica- Pouso Alegre (p. 75-76)

Freguezia da Cidade
Na vertente sul de um dos contrafortes da serra do Gaspar, em terreno ligeiramente accidentado, que em suave declive vai morrer na margem esquerda do rio Mandú, se ostenta a formosa florescente cidade de Pouso Alegre, tão gloriosa por suas tradicções, tão encantadora por sua bella situação topographica.
Além do nome que tão bem lhe cabe, o espírito de bairrismo tem lhe angariado o pomposo e merecido titulo de princesa do Sul de Minas.
A construcção dos edifícios tem se limitado ao terreno que fica entre o dorso do contraforte e a margem esquerda do rio Mandú, por ser o terreno da margem direita alagado, accidentalmente, durante a epocha das águas, pelas enchentes deste rio e pelas do Sapucahymirim.
No momento em que escrevemos estas linhas achamo-nos á cerca de um kilometro ao sul da localidade, e diante de nós desenrola-se o panorama lidíssimo da pitoresca cidade cuja magnificência em vão tentaremos descrever, porque só a poesia, e não a phrase tosca e solta, poderia pintar este quadro com as cores vivas e rutilantes que se acha animado.
O vulto irregular das habitações mascaradas pelo frondoso arvoredo que rompe dos quintaes; as planícies intercaladas e cobertas de verdura; o avermelhado escuro dos telhados contrastando com a brancura das paredes; a matriz, com suas torres soberbas, rendadas de ameias, campeando altivas por cima da copada das casuarinas, semelhante a um desses castellos da idade Média; onde o zelo não permitiu que a mão destruidora do tempo lhe apagasse o antigo esplendor; enfim, o fundo escuro e sinuoso dos regatos serpeando por entre a cidade; tudo isso produz uma das mais bellas paizagens que a vista jamais se cança de contemplar!
O dia vai quasi  findo: o clarão avermelhado da tarde esparge sobre a cidade os seus tépidos raios; sopra brandamente a brisa sudoeste, agitando a coma do arvoredo em cadenciado vai vem: e por cima de tudo isto arqueia se um céo límpido, côr de opala; reflectindo a cor serena e pura do cahir da tarde!...
Pelos outeiros e pelas encostas tapizadas de verdura, pastam alegres manadas de gados, semelhantes a caravanas errantes animando o quadro deslumbrante que temos diante de nós.

Pouso Alegre 1900- Tela de autoria de José Fernandes de Souza Filho
Pertencente ao Acervo do MHMTT


Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.

*Escrito como no original.




segunda-feira, 7 de maio de 2012

Pouso Alegre por Amadeu de Queiroz


“Vivíamos lá muito apartados, sozinhos olhando o mundo de longe, através de notícias atrasadas. Com a nossa crédula naturalidade, falávamos das setenta e duas léguas a que ficava Ouro Preto, distância que jamais se percorria naqueles tempos, mas se media de povoado em povoado, simples direção no rumo norte, por onde se poderia alcançar, ousando-o, a capital da Província. (...)

Viajava-se tradicionalmente a pé, a cavalo ou de liteira carregada por mulas, quando se tratava de conduzir velhos, crianças e doentes. Não possuíamos veículos de transporte a não ser o desconjuntado trole do negociante Batista; afora ele, o carro de bois, o carrinho de carneiros, a carroça do capitão Caetano Lopes, puxada por um cavalo, única e memorável carroça existente no vastíssimo município de Pouso Alegre! (...)

E a vila conservava imutável o seu ar de abandono e de solidão, apenas agitada aos domingos, quando os roceiros concorriam à missa e iam ao mercado, precisando vender os seus produtos para se abastecerem nas lojas e nas vendas. Aos domingos o burgo se ajuntava e se confundia, vivendo intensamente dentro do seu isolamento para, no dia seguinte, recair na monotonia da pacata existência sob um céu azul, e repousar confiante, debaixo das estrelas.

Fato nenhum da natureza perturbava a harmoniosa calma da paragem. Nenhuma agitação inquietava o sossego de Pouso Alegre, a não ser a contínua passagem das boiadas e porcadas, dos rebanhos de cabras e carneiros, das manadas de éguas e de mulas – a multidão pecuária que descia das ricas pastagens dos Campos de Caldas, de Alfenas, das serras do oeste, e transpondo a cidade, tomava o rumo para a Barreira do sul, no alto da Mantiqueira. (...)

Avenida do Imperador- Século XIX

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pouso Alegre, por Amadeu de Queiroz



Assim o escritor pouso-alegrense Amadeu de Queiroz (1873-1955) descreve a terra onde nasceu no final do século XIX:


“Entendia-se Pouso Alegre espalhada no dorso das três colinas que descem longamente do norte e morrem nas ribas tortuosas do Mandú. No tope da colina central, dominando a paisagem , ficava o cemitério com suas taipas caídas em muitos lances, carcomidas noutros, onde os túmulos enegrecidos se escondiam, sem epitáfios, no matagal das ervas bravas. (...).

Logo abaixo do cemitério, em chão escavado, erguia-se a capelinha do morro, com o seu cruzeiro de pau fincado num monte de pedras. (...); terreiro de alegria das crianças que corriam, saltavam e rabiscavam nas paredes da capela, onde os grandes também deixavam lápis, nomes, versos, queixumes, uma ou outra palavra torpe.Morro abaixo, estendiam-se sucessivamente a extravagante e tortuosa Rua do Morro, o Largo do mercado e o da Matriz, deserto de gente, arborizado de cinamomos e casuarinas, formando uma aléia ramalhuda, fechada ao fundo pela velha igreja de taipas. Lá se levantava o cruzeiro sombrio, fincado na terra, onde os penitentes da roça depositavam as pedras votivas que conduziam na cabeça, acompanhando procissões. Depois a Rua do Imperador, o Largo da Cadeia, e daí por diante, até à margem do rio, desalinhada e agreste – a Rua da Ponte.

À esquerda e á direita, corriam paralelas, outras duas apertadas ruas, com casas de um só lado, casas antigas, de paredes lisas e caiadas, enfrentando os muros irregulares do fundo dos quintais do Largo, cada um com o seu desengonçado portão. Como estas, as outras ruas e travessas aparentavam abandono: cobertas de capim e de mato, sulcadas de trilhos por onde se transitava, ou cortadas pelo rastro areento das enxurradas. (...)

Na direção do sul, dilatava-se o vargedo do Mandu, geralmente chamada Vargem, logradouro municipal, pastagem pública onde se apascentavam confundidas as vacas da comunidade. (...)

Mais que gente, andavam os animais pelas ruas e praças de Pouso Alegre. Mulas e cavalos querenciados subiam da Vargem para o povoado, onde se espalhavam pastando o verde das ruas e becos desabitados; cabras domésticas se ajuntavam no adro da igreja, à sombra estendida das paredes; galinhas e, às vezes, porcos revolviam o lixo das casas despejados pelos portões dos fundos. (...)

A paisagem campestre dos arredores, as aves, frutas, flores, ervas e a criação, nos mantinham em contato íntimo e permanente com a natureza, enlevados na plantação; por isso não nos passava pela mente vender as frutas, nem as ervas, nem as flores: tínhamos por costume a espontânea cortesia de mandá-las de presente aos nossos vizinhos, aos amigos e aos parentes. (...)

Praça de Pouso Alegre- Final do século XIX 
Acervo do Museu Histórico Municipal Tuany Toledo