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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Capela do Rosário

No testamento que o Alfares Manoel de Castro fez e com o qual faleceu na Vila da Campanha da Princeza em 20 de novembro de 1823 e cuja cópia se acha transcrita no 1° livro de óbitos da Catedral de Pouso Alegre, consta entre as suas disposições de ultima vontade para ser cumprida pelos seus testamenteiros: José Francisco Pereira, José Pereira Ramos e João Ribeiro da Silva, todos residentes no arraial do Mandu, a seguinte declaração- “manda conduzir toda madeira necessária para a Igreja do Rosário da Freguezia de Pouso Alegre, onde residia”.
Pelo disposto desse legado, em falta de outros informes que prove a sua construção anos anteriores, verifica-se que a primitiva Capela do Rosário estava sendo construída naquele ano no então arraial de Pouso Alegre, e graças a tão generosa dádiva poude dar andamento ao início de suas obras.
Além dessa dádiva outras mais se sucederam, e a sua construção foi muito demorada, visto depender sempre de inúmeros auxílios. Ainda a esse respeito declara a cópia do testamento de Ana Tereza de Carvalho, feita em 29 de maio de 1826 em Pouso Alegre e que se acha transcrita também no citado livro de óbitos da Catedral, às páginas 152, verso, que diz: “deixo para as obras do Rosário 4$”. Dois valiosos documentos esses afirmativos de que jamais haveriam de arrefecer aqueles tão vivos sentimentos de fé que fizeram surgir em 1799 a Capela do Senhor Bom Jesus nesta localidade e que mais tarde, em 1810, se transformaria em Matriz da Freguezia de Pouso Alegre, vulgarmente denominada do Mandu onde se prosseguia no ano da graça de 1823 a construção da Capela da Senhora do Rosário que, mais tarde se transformaria provisoriamente em Matriz da Freguezia para maior gloria de sua existência e de sua historia.
Realisou-se destarte o inicio das obras da Capela, muito embora para ser ultimada a sua construção, através de anos sucessivos, tivesse recebido seguidamente dádivas do povo.
A sua edificação parecia a principio um exagero e uma espécie de luxo do povo em querer possuir mais uma igreja no arraial. Entretanto, ao contrario, não tendo sido esses os seus fundamentos de origem, a sua construção dependei principalmente da devoção não só dos homens de cor como de toda a população da Freguezia, muito embora nessa época dominasse o espírito de classe tal como estava dividia a sociedade local, quiçá como em todo paiz, em senhores e escravos, pois a verdade é que toda população concorreu para a sua edificação.
E foi por força da fé viva religiosa dominante e o espírito de associação dos homens de cor de então que se conseguiu a construção dessa igreja.
Nada mais natural que os miseráveis e infelizes escravos pousoalegrenses, tivessem a sua igreja a exemplo de toda Minas e, coligados, para o mesmo fim, de migalha em migalha edificassem com o auxilio de seus senhores no antigo largo da Alegria, praça deixada em aberto pelo Padre José Bento, vigário de então, no lugar chamado Rancho, em Pouso Alegre, hoje Parque Municipal, á Praça João Pinheiro, com a intenção de se construir ali a Capela do Rosário com essa invocação, dedicada á Santa Tereza Protetora de sua classe. Tal milagre e prodígio, fruto aliás cujo colaborou a fé de todos os pousoalegrenses que, conjugados, escravos e senhores, conseguiram levantar ali esse templo que é de grata memória para a historia de emancipação de seu solo, sobremodo porque reconheciam todos iguais parente de Deus. Eis o móvel magnífico de seu triunfo e o segredo primordial de sua construção.
Fora edificada de fato na esquina da rua que se chamou, por isso, do Rosário, hoje D. Nery, com a atual Tiradentes, em conhecida vulgarmente hoje por parque, na praça legalmente denominada João Pinheiro, um dos mais agraciados pontos de recreio da cidade, o antigo largo da Alegria, hoje transformado num ótimo Horto Florestal da cidade, cheio de arvores e pássaros, fazendo inveja a muitas cidade.
De feitio simples, com frontespício de chalé, a Capela do Rosário, tinha em frente, nesse largo denominado outrora da Alegria, um grande Cruzeiro de madeira de lei, eregido onde está hoje precisamente a Padaria Alemã, tendo em volta de seu pé um patamar de pedras toscas e soltas, cujo local ainda alcançamos. Á sua historia esta ligado num fato relevante da historia da cidade, pois, foi ali, que, em 6 de Maio de 1832, o Dr. Francisco de Paula Cerqueira Leite por comissão do Ouvidor da Comarca do Rio verde da Vila de Campanha da Princeza, de conformidade com as ordens expedidas pelo Exmo. Presidente em Conselho da Província e da Resolução da Assembléa Geral Legislativa de de 13 de outubro de 1931, levantou o pelourinho de sua emancipação municipal.
Esse ato, celebrado naquele dia com todas as solenidades do estilo em presença de grande numero de cidadãos, provocou demonstração de alegria e contentamento em todos que repetiram vivas á religião Católica, a Assembléa Legislativa, a sua Majestade o Imperador Pedro II e a Regência. O relato desses acontecimentos, segundo o termo aberto á pag. 1, que descobrimos transcrito no auto avulso referentes esses fatos e existentes no Arquivo Publico Mineiro, consta do ato de levantamento do pelourinho  mais atos praticados nesse dia da instalação da Vila de Pouso Alegre.
Sobre o que se refere acima, o auto de ereção da Vila de Pouso Alegre nada diz quanto a discrição do referido pelourinho.
Na mesma data em que publica o alvará, faz Cerqueira Leite erguer o pelourinho no Largo do Rosário e, tal como foi lavrado na ocasião, reza o auto: “com a solenidade do estilo no lugar onde se considerou mais próprio e a como do, e justamente vem a ser no Largo da Alegria da dita Vila, defronte a Igreja do Rosário”.
Assim o pelorinho da Vila foi erguido nesse largo por ser este um dos logares mais públicos da povoação e por ter uma Igreja o que fizera preferido aos outros, conforme determinava a lei antiga.
Ficando nesse local entre a Igreja e o Cruzeiro, ele devia ter consistido apenas em um posto de madeira de lei, tal como geralmente eram todos os pelourinhos em todas as vilas do Brasil naquela época, como muito bem explica Salomão de Vasconcelos em seu trabalho: “O pelourinho de Mariana”, publicado em 05 de junho de 1939, em Belo Horizonte.
Posto ali a principio como marco simbólico da jurisdição municipal, servindo também, tempo depois, como instrumento de suplicio onde eram amarrados e expostos para serem acoitados os negros cativos e criminosos sem nobreza, servindo ele mais tarde como tribuna de onde se publicavam as sentenças a que estavam condenados, os escravos, principalmente as condenações a pena de morte, o qual desapareceu para sempre em 1850 quando esta pena foi extinta no Brasil.
Dele partiam os condenados levados pela justiça e carasco, para que serem executados na Forca existente no alto do Cemitério Velho da cidade, onde está hoje a Cruz de Ferro, a vista curiosa do povileo.
Foi certamente nesta coluna que esteve amarrado, algemado, Antonio Conego, em 1° de Julho de1846, para ouvir sua sentença de morte, lavrada e executada por Julião Florencio Meyer, juiz municipal de outrora, e foi finalmente na Capela do Rosário que ele recebeu os últimos sacramentos da Igreja onde confessou e orou pela ultima vez em sua vida, para em seguida ser levado pela justiça de Pouso Alegre até o morro das Cruzes, próximo do Cemitério, onde foi entregue ao Carrasco Fortunato por quem foi executado naquele largo a vista estupefato do povo que atônito assistira aquele ato de justiça humana.
Da há muito desaparecido daquele local, esse pelourinho deixará apenas o Cruzeiro colocado a sua frente que até há bem poucos anos ali existiu, vindo a desaparecer também para sempre por volta de 1908, quando da feitura do atual Parque Municipal, tempo em que não mais existia igualmente a Capela. Tal como aconteceu com o pelourinho, antes de 1889, por ameaçar ruínas, visto ser um prédio de paus a pique, foi demolida a antiga Capela do Rosário de que por muitos anos existiu naquela praça, conforme atesta o termo de visita diocesana, lavrado nesta cidade por D. Lino, em 23 de setembro de 1889, e que se acha registrado no livro de tombo existente no arquivo Diocesano deste Bispado e aberto naquela ocasião pelo Revmo. Vigário encomendado da Freguezia Conego Vicente de Melo Cézar, dizendo apenas existir ali os alicerces para uma nova igreja nessa praça.
A demolição da Igreja do Rosário foi resolvida de fato em 28 e 29 de abril de 1878, em reuniões da irmandade, realisadas na Igreja as 4 horas da tarde daquelas datas e presididas pelo Ver. Con. Barnabé José Teixeira, estando presentes a ela os Drs. Eduardo Antonio de Barros, Paulino Cirilo Leão da Silva e os irmãos: Antonio e Joaquim Gomes Teixeira, o Capitão Candido Antonio de Barros e Francisco Machado de Andréa. Reunidos estes se constituíram em comissão deliberadora e realizadora da obra da então e futura “nova Capela que seria edificada no centro do terreno em aberto que se acha em frente a casa da Sra. D. Honoria Ferreira e Silva e no alinhamento de sua casa na Rua Tiradentes com frente para o Largo do Rosário e bem assim que esta seja feita de adobes, travamento de madeira e sobre alicerces de pedras.
É o que consta no I livro do inventario Geral da dita Igreja pertencente ao Arquivo Paroquial da Catedral, as págs.15, tal como quiz a citada comissão justamente no cento do terreno onde se acha a atual Igreja do Rosário, assentaram-se alicerces de pedra dos quais em 1889 dera noticia D. Lino e sobre os quais se construira, mais ou menos, por volta de 1906, outra igreja que veio a cair.
A antiga Igreja dedicada a N. Sra. Do Rosário pertencia aos homens de cor, mas a sua administração estava afeta ao vigário de Pouso Alegre e as pessoas gradas do lugar. Era um edifício modestíssimo e sem outro valor que o de atestar os sentimentos religiosos e a boa vontade de seus edificadores, como faz certo Bernardo Saturnino da Veiga, em seu magnífico Almanaque Sul Mineiro, as pag. 223, o primeiro e verídico historiador da cidade.
Era um edifício de paus a pique, baixo, em forma de um chalé, em cuja ponta de seu ângulo havia uma cruz singela, com duas varandas laterais em meia água, presas quasi ao seu telhado, tendo três portas, uma de cada varanda, todas elas dando ingresso para o corpo da igreja. Do lado esquerdo, na varanda e pelo lado de fora, havia tosco e simples, um senheiro pregado da madeira em mão francesa. Dentro da nave nenhuma obra de arte havia de apreço e notável relevo arquitetônico, senão muito singelicamente adornado o trono da Senhora do Rosário, altar-mór de algum lavor em ouro.
A partir de 1849, mais ou menos, essa igreja, não obstante ser um templo pequeno, modestíssimo e simples, serviu de Matriz da Freguesia em virtude da construção na nova matriz que se “principiava a construir atraz da Matriz existente”, como relata as atas das sessões extraordinárias da Câmara Municipal de 11 e 26 de Setembro de 1849. Esta igreja que se principiava a construir e de que falam as atas supras era a atual Catedral edificada atraz da velha Matriz da Freguezia, a antiga e primitiva Capela do Mandu, que foi ereta em 1799, servindo desde o inicio do Arraial como igreja mãe, e foi demolida somente depois de iniciada a construção da nova igreja- a atual Catedral de Pouso Alegre. E foi por isso que a igreja do Rosário funcionou por muitos anos como matriz da Freguezia de Pouso Alegre.
Prova-se esse fato pela ata da 6ª Sessão Ordinária realisada em 16 de outubro de 1856, pela Câmara Municipal, em que “manda o fiscal concertar as ruas de Santa Rita (hoje Afonso Pena), e Rosário (hoje Dom Nery), antes das chuvas, mormente onde se acha a Igreja do Rosário servindo de matriz”. Esteve essa igreja funcionando como Matriz da Freguezia até 24 de Dezembro de 1857, data em que se deu a inauguração da nova Igreja Matriz, a Catedral de hoje, que foi benta naquela data pelo vigário Cônego Barnabé José Teixeira.
Assim, a respeito da Igreja do Rosário, insistimos em que ela tenha representado um fato de alta significação para a historia administrativa e religiosa da cidade porque perante ela se celebrou o ato oficial da elevação de Pouso Alegre a Vila e ali que se erigiu o pelourinho- marco oficial de nossa existência municipal, tendo servido como Matriz da Freguezia.
Recordar a sua existência é recordar as congadas, organisadas pelos escravos da cidade, relembrando também as cavalhadas que se faziam anolucente ali e onde tomava parte toda a população de Pouso Alegre de antanho, nos dias festivos consagrados a Nossa Senhora do Rosário, reviver, pois, a historia dessa igreja é relembrar enfim que ela deu nome a uma grande área urbana da cidade.      
Extraído do Jornal “Gazeta de Pouso Alegre” 26/11/1916
*Escrito como no original
Paque Municipal e Largo do Rosario- 1918
Acervo do MHMTT

Organizada a Radio Club de Pouso Alegre, S.A.

O órgão oficial do Estado publicou já a ata da organização da sociedade anônima aqui fundada, com o fim de crear em Pouso Alegre uma estação radio Difusora.
Os primeiros passos concretos foram depois coroados de êxito e todos os habitantes desta cidade devem se alegrar com a noticia auspiciosa e sensacional.
Graças a um pugilo de homens arrojados e valorosos teremos, muito em breve a Radio Club de P. Alegre a encher os ares do Sul de Minas com seus ruídos sonoros atestando o nosso progresso e as iniciativas de lutadores enérgicos e corajosos.
Não precisamos encarecer nestas linhas o valor imenso dessa estação de Radio que será plantada nesta terra encantadora e radiosa, pois todos conhecem de sobejo impulso que a mesma virá trazer á marcha progressista de Pouso Alegre.
José Nunes Rebello, José Francisco de Brito, Orfeu Butti, Joaquim Silveira, Dermeval Coutinho, Pedro Rebello e outros puzeram se a frente desse emprendimento grandioso cujos resultados serão coroados de êxito, porque assim o que querem seus fundadores e assim o querem nos bons filhos deste município, que com o seu apoio e entusiasmo concorrerão para a grandesa sempre crescente da Radio Club de Pouso Alegre, concorrendo assim para o crescimento ascencional de Pouso Alegre, como um dos centros mais cultos e empreendedores de Minas e do Brasil.

Extraído do jornal “O Município” de 28/09/1939, capa
*Escrito como no original
Inauguraçao da Radio Club

terça-feira, 19 de junho de 2012

Vila de S. Vicente

São bem compreendidos em nosso meio os trabalhos da Sociedade de S. Vicente de Paulo em favor da assistência social.
Graças a um pugilo de sacerdotes e homens cristãos de boa vontade dirigidos pelo conselho central da diocese com séde nesta cidade muitos serviços á sociedade tem prestado a Sociedade de S. Vicente de Paulo em Pouso Alegre. Hoje não queremos falar da sociedade em geral mas particularmente da conferência que construiu e que cuida da Vila S. Vicente de Paulo á Rua Comendador José Garcia, além do Hospital Regional Samuel Libanio, Os pousoalegrenses não perceberam ainda que joia magnífica é para nossa sociedade a Vila S. Vicente de Paulo.
Cerca de trinta casas construídas em um recanto verdadeiramente pitoresco forma, com a igrejinha linda e com o bambusal em torno um conjunto magnífico pela sua belesa. Não é só.
Ali dentro é proibida a esmola aos confrades que residem dentro da Vila. Eles não precisam ser humilhados pela mão que estende a moeda ou a cédula movida por compaixão e piedade. Eles tem tudo, alimentos, roupas, remédios, assistência religiosa, a assistência solícita de confrades atenciosos. Monsenhor Mendonça é o assistente eclesiástico em Pouso Alegre da Sociedade S. Vicente de Paulo.
O Sr. Bispo interessa-se pela sociedade. Nas reuniões sempre envia S. Excia. Um representante seu.
Dignos dos nossos elogios são os confrades Sergio Meyer e Alfredo Baganha, incansáveis batalhadores da Vila de S. Vicente para a qual têm dado o melhor dos seus esforços e do seu carinho, acompanhados ainda pelos confrades José Borges do Couto, um dedicado e antigo vicentino.
O nosso povo precisa visitar a Vila de S. Vicente por que é uma instituição que honra a coletividade que a creou e nos faz acreditar na virtude dos homens cristãos.
Vila Sao Vicente- Igreja, década de 40
Acervo do MHMTT
Vila Sao Vicente- Década de 40
Acervo do MHMTT
Vila Sao Vicente- Década de 40
Acervo do MHMTT

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Hospital Regional “Samuel Libanio”


Si há realmente uma instituição de que Pouso Alegre possa e deva ufanar-se, essa é, por sem dúvida, o Hospital Regional “Samuel Libanio”.
Instituição de alta benemerência social e necessária assistência hospitalar destinada ao tratamento e amparo dos doentes pobres, remediados e ricos, o Hospital meréce de todos nós, e da nossa pobreza, em particular, a mais viva gratidão e os mais rasgados encômios, tais e tantos são os benefícios dele decorrentes.
Nada de esquecer também que os preciosos e inestimáveis recursos dispensados por esse manancial inesgotável de benefícios, não chegam somente até aonde o azul das nossas montanhas impõe fronteiras às cidades circumvizinhas. Mas, ao contrário, tem mais ampla projeção, vão muito além, estendendo-se a esta vasta e populosa região sul mineira, a qualquer parte onde um indigente deles necessite.
Nascido, há já quase dois decênios, sob a direção competente e honrada do dr. Custódio Ribeiro de Miranda, esse médico competente e bom, clínico abalisado, cirurgião hábil e seguro, profissional honesto, administrador ativo e enérgico, que tudo tem feito a bem do magnífico estabelecimento que tão acertadamente vem dirigindo, o Hospital tem crescido sempre, e, sem dúvida, continuará a crescer, para a felicidade nossa e dos que descambaram na penúria, sem se desviar nunca da rota traçada, mantendo-se sempre a altura das nobres e humanitárias finalidades a que se destinou. Pois, na verdade, só quem desconhecer no dr. Miranda as suas justas dimensões de espírito e a profundeza da sua cultura, poderá impor-lhe restrições ás qualidades brilhantes e negar justo louvor e admiração á casa que tão proficienmente dirige.
E foi, mercê da sua irradiante simpatia, trato amigo, afável e cavalheiresco, ilibada conduta moral, extrema bondade e inegável competência profissional, que o dr. Miranda logrou reunir em torno a si e chamar para o seio daquele notável estabelecimento hospitalar, um plêiade brilhante de médicos ilustres-, todos eles clínicos de conhecido e reconhecido valor, profissionais idôneos, que trabalham assídua e desinteressadamente com a melhor das dedicações, zelo e carinho, prestando uma grande parcelo de benéficos serviços aos numerosos doentes das enfermarias. Eles tem dado aos seus doentes o seu prestante e continuado labôr e concorrido grandemente para que o Hospital se mantivesse sempre á altura dos seus legítimos fins.
Também não haveria grave injustiça em lembrar, aqui, a não menos eficiente e valiosa contribuição das irmãs, farmacêuticos e dentistas, dos auxiliares, enfermeiros e serventes, que bem sabem que a utilidade nunca se esqueceu de nobilitar os que se servem.
Estes heróis obscuros e anônimos, nunca aparecem, nada pedem, nada impõem, não conhecem o louvor, e são como a pedra angular, que na profundidade ignorada, costuma sustentar a grandeza dos soberbos edifícios.
Já nãos mais constitue estranheza dizer que o Hospital Regional, que tanto beneficia a nossa cidade, é também um dos bem mais organizados do Estado. Ele é, presentemente, uma das maiores instituições que a cidade conta no seio, digna, porisso, do nosso melhor apreço e dos nossos mais entusiasmados louvores.
Ainda agora ele acaba de receber grande cópia de material- farmácia, laboratório e cirurgia, destinados aos serviços da casa, vendo-se, dest’arte, grandemente ampliado na sua capacidade podendo dispensar melhor e mais conveniente tratamento aos inúmeros doentes alli internados.
Para dar uma ligeira idéa dos enormes e reais benefícios que o Hospital tem dispensado á população, do profundo e continuado labôr dos que lá mourejam diariamente, alinharemos abaixo algumas cifras referentes a uma pequena parte dos trabalhos ali executados, durante o ano de 1937.
Ano de 1937
Doentes que compareceram ao ambulatório----------------------------------------------------28.555

Receitas aviadas na farmácia------------------------------------------------------------------------7.884

Doentes Hospitalizados-------------------------------------------------------------------------------1.426

Compareceram a secção dentaria-----------------------------------------------------------------2.358

Exames de laboratório--------------------------------------------------------------------------------1.542

Operações-----------------------------------------------------------------------------------------------375

Radiografias--------------------------------------------------------------------------------------------370
Verifica-se pelo exposto, que o Hospital presta realmente a população enorme soma de reais benefícios.
Contudo, é preciso que se diga, que o Hospital se ressente enormemente da falta de um pavilhão de isolamento e dum pavilhão para tuberculosos, destinados a isolar os doentes que, vitimas por moléstias contagiosas, não possam ser tratados convenientemente nas enfermarias. Nem se pode conceber mesmo, que um hospital de tamanha capacidade e não menor eficiência, não possua o seu imprescindível pavilhão de isolamento, pelo menos. A construção de tal pavilhão para o Hospital, constitue hoje uma necessidade inadiável.
Verdade seja também que a estreiteza da verba a que o Hospital tem de se amoldar e o pouco pessoal que dispõe, no momento, constituem, sem duvida, sério entrave ás suas funções. Afastados os ôbices, que acabamos de apontar, o Hospital estaria em ótimas condições de dispensar melhor tratamento a seus doentes e proporcionar à coletividade maior soma de benefícios.
Errados andaríamos si, ao finalizar estas linhas, dexassemos de dirigir um apelo ao Dr. Benedito Ribeiro Valadares, em favor da nossa melhor instituição hospitalar.
Estamos certos de que o governador Valadares, esse grande estadista que se impôs á admiração a nossa gente, como uma das colunas mestras na reconstrução do Estado Novo, e a cuja larga e clara visão jamais escapou qualquer problema que dissesse respeito ao bem estar coletivo, não nos faltará com o seu sopro vivificante, voltando as suas vistas para a nossa mais notável e útil instituição, pois, o desenvolvimento e melhoria dela, depende direta e exclusivamente, de quem tão bem soube conquistar a simpatia e a consciência do povo mineiro.   
Extraído do jornal “O Município” 01/09/1938, p. 04
*Escrito como no original
Hospital Regional Samuel Libanio- 1930
Acervo do MHMTT
Ambulatorio do Hospital Regional- Década de 30

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Curiosidades


No passado, a denominação de ruas e praças, em uma municipalidade, sempre tinha por homenagear figuras de relevo, datas ou fatos históricos, porém, nem sempre era aceita pela população, a qual adotava, espontaneamente, um nome mais popular, ligado a certas características, da rua, ou a algum acontecimento.
Vejamos alguns nomes antigos de ruas e praças de Pouso Alegre, as quais eram conhecidas popularmente por:
Rua do Imperador: Antigo nome da Avenida Doutor Lisboa no tempo do Império, dado pelo Senador José Bento.
Rua da Outra Banda, Boa Vista ou Cadeia Queimada: Atual Rua Silvestre Ferraz. Situava-se do outro lado de um brejal. Aí uma antiga cadeia incendiou-se. Foi a primeira rua que se formou na cidade.
Rua dos Coqueiros: Trecho inicial da Rua Comendador José Garcia, onde havia alguns coqueiros em uma residência.
Rua das Taipas: Trecho da Rua Comendador José Garcia, a partir do P.A.F.C até o final da rua. Referia-se ao muro de taipa da rua.
Rua da Palha: Atual Rua Cel. José Inácio. Havia um milharal ao lado onde, após a colheita, os animais soltos procuravam restos de milho entre a palha.
Rua das Pedras: Atual Rua Adolfo Olinto. Antiga Rua da Prata. Era pavimentada com pedras no treco do morro, para evitar-se a erosão provocada pela enxurrada.
Morro das Cruzes: Atual Avenida Getulio Vargas. Havia três cruzes no alto do morro, erguidas por escravos, segundo a tradição.
Largo da Cadeia: Ocupava o quarteirão onde foi construído o antigo Pouso Alegre Pouso alegre Hotel.  
Rua da Ponte: Chamava-se Rua Senador Eduardo Amaral. Ia do Largo da Cadeia, atravessava a linha férrea e terminava na ponte sobre o Rio Mandu. Desapareceu com o prolongamento da Av. Dr. Lisboa até a estação.
Rua do Brejo: Atual Rua João Basílio- Havia em cada sarjeta uma canaleta para drenar o terreno, que era muito úmido, e sobre a mesma havia pinguelas que davam acessos às residências.
Rua das 7 Casas: Av. Abreu Lima- Havia na rua 7 casas geminadas e iguais.
Largo do Rosário: Atual Praça João Pinheiro. Aí foi levantado o pelourinho, em frente à primitiva igreja do Rosário.
Rua dos Tocos: Atual Rua Monsenhor Dutra. Havia na esquina com a Comendador José Garcia vários tocos de madeira fincados no chão pelo proprietário do terreno, que estava em demanda com a Prefeitura e impedia a passagem de veículos.
Beco do Crime: Travessa Vereador Joaquim Manoel dos Reis. Aí foi assassinada uma jovem pelo seu namorado, na noite de Natal de 1951.
Rua do Arame: Atual Rua Samuel Libanio. Os terrenos dessa rua eram divididos por cercas de arame farpado.
Rua do Biju: Atual rua Monsenhor José Paulino. Residia nesta rua Marcelo Cáceres, conhecido popularmente por “Biju”. Figura pitoresca, dono de um ferro-velho, que nas horas vagas fazia propaganda na rua, de comércio, cinema, festas, etc. Vendia também casquinhas de biju.
Os Quatro Cantos: Área compreendida entre as ruas Bueno Brandão e Coronel Pradel, no sentido da subida do morro, e a rua David Campista e Rua da Tijuca, no sentido horizontal. Aí situava-se a zona boêmia (R. David Campista), e no alto do morro, barracos de gente pobre. Era local de má fama.
Rua da Caixa d’água: Atual Bueno Brandão. Rua que dava acesso à antiga caixa d’água, no bairro da Saúde.
Morro do Querosene: Rua da Tijuca e adjacências. As casas eram iluminadas por lampiões e lamparinas.

Extraído do livro “A História de Pouso Alegre” de Octávio Miranda Gouvêa, 2004.
Planta da cidade de Pouso Alegre- 1927
Acervo do MHMTT

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Os Italianos em Pouso Alegre


É inegável o fator progressista que as correntes imigratórias trouxeram ao nosso país.
Dentre elas, a italiana corresponde a uma excelente parte.
Pouso Alegre, município não cafeeiro, não teve o afluxo de outras cidades interioranas preferidas pelo intenso cultivo da rubiácea. Os que aqui aportaram, desenvolviam mais atividades artezanais que propriamente agrícolas.
Ainda assim, com a instalação da Colônia Francisco Sales, na Faisqueira, ali localizaram-se inúmeros italianos, alguns dos quais ainda residem naquele local, dedicados á agricultura. Ao que parece certo, entre 1880 a 1890, data o aparecimento dos primeiros italianos em Pouso Alegre.
João e Pedro Scapulatempo, foram os primeiros. O primero, comerciante arrojado e o segundo caldeireiro.
De 1890 a 1900, o numero cresceu. Antonio Rigotti, com fábrica de cerveja. Pedro Chiarinni e seus filhos Angelo, Francisco e Alexandre (agricultores e comerciantes). Marieta Consoli e seus filhos João e Eugênio Consoli, José Contrucci dos Santos (Zeca- Santo) comerciante no alto das cruzes. José Chiarinni e Carolina Renzeti Chiarinni, Pascoal e Antonio Bartolomei (ambulantes). Francisco, Pedro, Domingos e José Matei. Luis e André Gianini, Jacinto e Angelo Navri (transportadores). Angelo Tadelli. Antonio Antonelli (barbeiro). Girolamo Pagliarini (Hotel e Barbearia). Nicola Laraia (sapataria). Marcolino e Angelo Guersoni (olaria e cerâmica).
Na primeira década do século, aqui se instalaram Francisco Campanella (relojoaria, posteriormente casa de bicicletas). Francisco Matragrano (fábrica de calçados). Roque de Maio (confeitaria Progredior, famosa até 1925). Rizzieri Butti (fábrica de bebidas e cerveja). Pascoal Ambrosio (sapateiro). Cristoforo, Miguel e Braz Vita (comerciantes e sapateiro). Isidoro Tiburcio (fábrica de móveis). Olinto Tiburcio (comerciante). Felicio e Vicente Pascoal. Pedro, José e Artur Carleti, Antonio Ferrari (casa de móveis). Rergio Arnaldo Carneveli (elemento dinâmico, introdutor do primeiro cinema no Sul de Minas) fundador da cidade Italiana de Mutuo Socorro (1910). Angelo Marzulo (fabricante de macarrão). Inocencio Fabbri (mamorista). Miguel e Olinto Bertoluci (comerciantes). Braz Vitali (alfaiataria). Enrique Constanti (cortume). Vito Laraia (cortume). Nicolau Barati. Demétrio e Domingos Casarini (agricultores). José Boschi (olaria e cerâmica). Luis Saltini (alfaiate). Braz Frusco, Maestro Sartori, José Canela, Miguel Malvacini, Isidoro Verdi, Adolfo Binassi (açougue). Antonio Viali (Açougue). Pio Gissoni (construtor). Antonio e Maestro Antonio (frentistas). Joã Bertolacini (casa de comércio no Largo do Mercado). Agnelo Bertolacini, Salvador Ventre Natal (comerciante). José Inocente (Roma). Domingo Motnori (agricultor). Cesar Ceconeli (sapateiro). Romulo de Marchi (pintor). João Pata, Deodato Seda. Caetano Russo (confeitaria). Angelo Leone (sapataria). José Gambi.
Na segunda década, Domingos e José Caudino (construtores). Feliz Bove (organizador do primeiro jogo de polo). Miguel Saponara (relojoaria). Cesar de Leteaux (relojoaria). Primo Volponi (comerciante). Agostinho Odisio (escultor). Pompilho Ferrini (fábrica de macarrão). Jeronimo e Higino Puccini (fotógrafos). José del Pichia, Domingos Albanez (marmorista). Vicente Charlante, Cirilo Spolsimo, Casalechi Sofonisbo.
Até 1920 era intensa a vida associativa da colônia italiana.
Reunindo-se nas cervejarias, nas disputas das boccias e na sede própria da Sociedade a discutir política e os problemas da terra distante, tornavam divertidas e amenas suas vidas em nossa cidade. Quase todos liberais, eram Mazzinianos, Garibaldinos e de Cavour, de tendências acentuadamente socialistas. Muitos poucos eram monarquistas por convicção, embora os retratos do rei e família figurassem em muitos lares.
As reuniões nos campos de boccias, tornam-se divertidas. As disputas de ter-sete, patrone e soto bocias, davam margem á aproximação e alegria. As canções da terra eram entoadas.
Santa Lúcia, Torna a Surrento, Il Ino dei Lavoratore (Bandeira rossa), il 24 de Maggio, La Canzone del Piave, cantadas ora por uns, ora por outros, uniam ainda mais os italianos.
Raras foram as desinteligências entre os membros que sempre conservaram amizade e dedicação á nossa terra.
Parece não constar mesmo qualquer deslise policial na vida de toda colônia italiana em Pouso Alegre.
Hoje, o numero de italianos é bem menor. Desaparecidos inúmeros que figuram na lista presente, ainda assim, os que restam, alguns quasi nonagenários, prestam seu concurso e seu trabalho a nossa terra, dignificando a terra de Mazzini, Cavour, Antonio Gramsci, Garibaldi e Dante. Ao focalizar no centenário de nossa cidade as atividades e a cooperação dos italianos em prol de Pouso Alegre, o fazemos certos de interpretar os sentimentos dos pousoalegrenses por uma aglomeração honesta, produtiva, democrata e progressista.     
Extraído do Jornal “A Cidade”  19/10/1948, p. 5
*Escrito como no original

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Beijou a mão do Padre-Senador: Quatro anos mais velho que a cidade. – Conheceu os assassinos do Padre José Bento.- Monsenhor José Paulino foi pro Ceará. (Reportagem de Fernandes Filho)

Quando me disseram que existia na cidade um homem de 104 anos, lúcido e firme, cheguei a duvidar. Acostumado com o espetáculo diuturno da queda da arvore humana antes de ter ultrapassado meio século de existência, era de ficar espantando com a sobrevivência de uma criatura que já havia dobrado uma centena de anos e que se mantinha de pé, afrontando a lei sancionada pelos trópicos.
O São Tomé que vive dentro de nós todos impeliu-me á procura do Matusalém. E o vi e o toquei com estes olhos que a terra um dia hão de comer.
Camilo Antonio Felizardo
Preto. Nascido em Santa Rita do Sapucaí. Filho de africanos, da costa da África, vieram seus pais num daqueles cargueiros humanos que enchiam as noites de gemidos e angustias, cujos ecos existem vivos e terríveis nas estrofes imortais do vate baiano.
Carapinha branquinha como algodão. Olhos com a bruma seca do tempo, gastos de tanto uso. Rosto liso, sem uma ruga, como se estivesse vivendo uma outra infância. O cinema retrospectivo da memória funcionando perfeitamente, numa projeção clara, andamento regulado, sem um tropeço ou falha
As palavras lhe saem da boca centenária com a mesma facilidade com que brotam os sons de cordas vocais tangidas pelo vigor da idade.
Camilo Antonio Felizardo tem 104 anos no duro. No confronto das datas e dos fatos nós nos convencemos da sua longevidade.
Padre Zé Bento
O Padre José Bento era um rapagão bonito e desempenado, amigo de toda gente, trabalhador e piedoso. Gostava de tratar a terra, interessando-se sempre pelas plantações. Possuía um sitio perto da cidade e sempre ia vê-lo, montado no seu cavalo fogoso.
-Me lembro do Padre Zé Bento, montado no seu alazão, chamando a atenção de todo mundo. O Padre era muito importante.
Mas, o senador José Bento era um temperamento nervoso e vibrátil, causador da sua brilhante atuação na vida política de nossa terra e do país, como de sua morte em situação tão trágica.
O Assassinato do Padre José Bento
Uma questão de divisas de terras e de roças de milho entre o Padre José Bento e seus confrontantes, os irmãos Baltazar, Jacinto e Dionisio, estabeleceu uma surda mal-querença entre eles.
-Os três irmãos eram gente rústica, abrutalhada, pouco amiga da paz. Tramaram a morte do padre e numa tarde, quando o padre ia pro sítio, atiraram nele de tocaia. Deixaram o corpo estendido na estrada e desapareceram.
Baltazar foi morto pela policia, em Santa Rita do Sapucaí, quando atravessava a ponte. Dionisio fugiu para a província de São Paulo. Mas a justiça divina não falha, o Dionisio ficou morando naquela província e lá não arranjou família.
Um dia o homem brigou com a mulher e disse que ia fazer com ela o que tinha feito com o padre em Minas. A polícia, instigada pela mulher, descobre a coisa e recambia o Dionisio para a nossa cidade. O dia da chegada do prisioneiro foi tal qual um dia de festa. Toda gente queria ver o homem que tinha matado o padre-senador. E o homem que havia assassinado a figura mais importante da cidade voltava velhinho, doente, que dava pena. Dionisio morreu poucos meses depois de ter voltado para Pouso Alegre.
Dr. Lisboa- “Arma Santa...”
Dos médicos que clinicavam em Pouso Alegre, Camilo lembra de dois: Dr. José Antonio Freitas Lisboa e Dr. Francisco Silviano de Almeida Brandão.
-Doutô Lisboa era uma arma santa, meu filho. Eu passava quasi que o dia inteirinho na casa dêle, brincando com seu filho Lulú (Luiz Lisboa, mais tarde senador estadual, pai do Dr. Antonio de B. Lisboa ainda é vivo e reside em Ouro Fino).
E o preto Camilo fala demoradamente sobre a bondade do Dr. Lisboa, alma aberta á caridade, sempre pronto a levar o refrigério da sua ciência e da sua bondade aos doentes e aos sofredores.
-Me dissero que arrancaram o nome do doutô Lisboa cá da praça e puzero o nome de outro. Isso é uma ingratidão!
A voz do preto velho tem um tom de protesto. É que o Camilo não consente que se desrespeite a memória do seu amigo. Volta-lhe a calma quando lhe digo que a Câmara colocou de novo o nome do Dr. Lisboa na Avenida.
-Bem feito...
O Dr. Silviano Brandão era também um bom moço, caridoso, prestativo. Mas a política absorveu todas as atividades e o enleiou no seu rodamoinho.
-Dotô Sirviano viro senado, iguar Padre Zé Bento. Dr. Sirviano fez roça pros negro sê arforriado. A negrada achou bão, mas nêgo veio num fico munto satisfeito, não...
Um sorriso velhaco enrugou a pele esticada do preto centenário.
Mons. José Paulino
Camilo Felizardo tem palavras de saudade para a memória do Mons. José Paulino. Tanta bondade existia naquela alma que todos o tinham como santo.
-Padre Zé Paulino era tão santo que D. Néri mando ele pro Ceará, para indireitá aquele povo que era muito heréje e que tava morrendo de fome. E o padre custô mas botô as coisas de lá no eixo...
Tempos depois, o Mons. José Paulino voltou do Ceará, acabado pela moléstia que não demorou muito a levá-lo dentre os vivos.

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Continua a correr o celulóide gravado na memória do preto-velho Camilo.
Recorda-se da chegada festiva do Sr. Gabriel Osorio de Almeida, recém-formado pela Escola Politécnica “da Côrte”....
Mudou muito a fisionomia da cidade. Não é a mesma dos tempos da mocidade do Camilo Felizardo.
-A cidade de hoje pode tá mais importante, mas nunca que é mais bonita que a outra. Tá carçada de pedra, cheia de barúio de cmainhão, otomóve e charrete, mas os home são doferente pra piór...
Naquele tempo, as portas das casa tava sempre escancarada, nêgo veio ia até a cosinha, tomava seu cafesinho, picava uma lenha, dava um dedo de prosa e saia pelo mesmo lugá que entro. Os home oiava a gente cum amizade. Hoje, cruz credo, a gente vê a ambição e a mardade nos óio deles!
Onde é que a gente encontra hoje uma bondade como a do Dotô Lisboa, do D. Néri, do Padre Zé Paulino?
E, meneando a cabeça. 
-A cidade tá importante e mais barulhenta, num hái dúvida, mas nunca que é mais bonita.
Lá se foi o Camilo Felizardo, arrastando o fardo de seus 104 anos de existência. Ele conservou sua paixão pela cidade simples, sem artifícios, só com os enfeites da própria natureza. Os homens do seu tempo traziam as casas e os corações abertos. Os de hoje trazem a maldade e a ambição impressas nos olhos duros.
Que Felizardo é esse preto velho que chegou a alcançar os distantes tempos em que os homens eram bons!

Extraído do Jornal “A Cidade” 19/10/1948, p. 2 e 4
*Escrito como no original

segunda-feira, 11 de junho de 2012

História de Pouso Alegre- Jornal "A Cidade"

Freguezia da Cidade
“Pouso Alegre é sem dúvida alguma a mais bella povoação do Sul de Minas. O terreno, ligeiramente accidentado em que assenta a formosa cidade, a que não faltão planícies encantadoras nem pontos vista admiráveis; o rio Mandu, que outr’ora deu nome à localidade, e que hoje só por ella é conhecido; as bellas montanhas que fechão o horizonte, e mil deduções da natureza esplendida desta região, recomendão esta cidade tanto, como a belleza de suas ruas e praças, o capricho e asseio que se nota nas edificações, - indicando tudo que ali vive um povo intelligente e civilisado.
Na estação chuvosa as águas do Mandu, crescendo prodigiosamente, alagão suas margens até pontos muito afastados, semelhando um mar cheio de ilhas, dividido por um imenso aterro, sobre o qual está a estrada para São Paulo, que então reperesenta uma extensa ponte.
A enchente, que em regra é aterradora e triste, tem em Pouso Alegre mais sympathico aspecto, porque é com ella que a formosa cidade, mais faceira e mais garrida se mostra aos olhos enlevados dos que a contemplão.
O Mandu, depois de deixar a cidade, lança-se no Sapuchay-Mirim, piscoso rio que corre a menos de 2 kilometros confundindo-se depois com o Sapucahy-Guassú que passa a 6 kilometros, e em cujas águas transitão livremente barcas com capacidade superior a 1.000 arrobas e que fazem viagens entre diversos pontos dos municípios de Pouso Alegre, Itajubá, Alfenas, Machado e Campanha.
A pouca distância corre o Cervo, cujo Valle, notavelmente ubérrimo, é tido com um rico celleiro da freguezia.
Condições geographicas tão boas, unidas à excellentes terras de cultura da freguezia, não podem deixar de trazer em futuro breve, o adiantamento moral e material que a Cidade de Pouso Alegre, com razão, julga-se destinada a gozar.
Diz a tradição que foi um aventureiro, de nome João da Silva, quem primeiro residio nesta localidade, erguendo sua casa nas margens do Mandu e entregando-se à lavoura. Prosperando nesse trabalho, no fim do século passado, João da Silva deu o terreno preciso para a edificação de uma capella consagrada ao Senhor Bom Jesus. Construida essa igreja, para a qual concorrerão os visinhos de Silva, no ano de 1795, mais ou menos, o Padre Francisco de Andrade Melo, de Sant’Anna do Sapuchay, veio celebrar a 1.a missa, sendo então contratado para capellão particular.
Em 1797, o governador D. Bernardo José de Lorena, Conde de Sarzedas, que de São Paulo fora transferido para a Capitania de Minas Gerais, passou pelo nosso povoado, onde veio encontra-lo o Juiz de Fóra da Campanha o Dr. José Joaquim Carneiro de Miranda. Encantados pela esplendida belleza do lugar em que se achavão, conta-se que um daqueles cidadãos dissera que o lugar não se devia chamar Mandu, como então era conhecido, mas sim POUSO ALEGRE- e que dahi veio a denominação que o povo e a lei posteriormente sanccionarão.
Foi o Alvará de 6 de novembro de 1810 que elevou Pouso Alegre á categoria de freguezia- 21 annos depois á Villa pela Lei de 3 de Outubro de 1831, dando-lhe a lei n. 433, do anno de 1848, titulo de cidade.
A povoação possue 4 praças, 26 ruas e cerca de 400 casas, em geral bem construídas e asseiadas. Tem um bonito e grande theatro, denominado UNIÃO, com accomodação para 1.000 pessoas, tendo 75 camarotes, platéa com cadeiras e bancos, pertencente a uma associação de homens intelligentes, que nelle tem  levado á scena trabalhos importantes, com excellente desempenho.
Filhos de Pouso Alegre que seguirão estudos superiores: o Dr. Grabriel Osorio de Almeida, formado na Escola Polytechinica, Adalberto Dias Ferraz da Luz, matriculado na Faculdade de Direito da cidade de São Paulo, Josino Alcantara de Araujo, no 2° anno, e Luiz Candido da Rocha no 4°.
-A cidade possue uma typographia na qual se publica uma folha hebdomadária intitulada Livro do Povo, de que é principal redactor o illustrado cidadão Luiz de Almeida Queiroz. Já nessa cidade, por occasião da fundação do Imperio, se havia publicado o PREGOEIRO CONSTITUCIONAL, e foi então que em Pouso Alegre, primeiro lugar do Sul de Minas que teve imprensa, se imprimio pela primeira vez no Imperio o projecto de nossa constituição política, que ainda hoje é conhecido pelo nome de CONSTITUIÇÃO DE POUSO ALEGRE. Na cidade existe um gabinete de leitura, fundado por alguns intelligentes moços, e onde são encontradas obras de merecimento”.


Extraído do Jornal “A Cidade” 19/10/1948, n. 16, ano I
*Escrito como no original

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre
Freguezia da Cidade (p. 105-108)

A tudo que dissemos em abono de Pouso Alegre, resta-nos acrescentar a excellencia do seu clima.
Baseando em dados officiaes, fornecidos pela Comissão Geographica de Limites, que aqui teve a sua sede perto de quatro annos, podemos asseverar que o clima de Pouso Alegre é um dos melhores do Sul de Minas.
Póde parecer á primeira vista, que durante a epocha das chuvas as enchentes dos rios a que acima nos referimos venham em desabono do clima da localidade; entretanto a observação tem mostrado que estas enchentes, que em outros logares sujeitos á mesma contingencia são causa de muitos males por occasião da vasante, aqui não tem produzido influencia sensível no estado sanitário.
As febres de mau caracter são aqui raríssimas.
Também não consta que a cidade em tempo algum fosse flagellada por qualquer epidemia.
A cidade, devido a sua topographia, é perfeitamente ventilada; nos dias de maior calor durante o verão há sempre uma viração agradável, renovando constantemente o ar.
Nessa epocha do anno, tanto as noites como as manhãs são muito frescas e agradáveis.
No inverno alguns defluxos e ligeiras bronchites vem perturbar o estado sanitário, atacando de preferência as crianças.
Segundo as observações da Comissão de Limites, o centro da cidade est
á a 825 metros acima do nível do mar, o ponto mais baixo a 310, e o mais alto a 887 metros.
As médias da temperatura durante os 12 mezes de 1896, com o thermometro á sombra, são as seguintes:
Janeiro: 23,5°; Fevereiro: 23,4°; Março: 22,9°; Abril: 20,4°; Maio: 16,3°; Junho: 16,3°; Julho: 14,1°; Agosto: 17,3°; Setembro: 20,0°; Outubro: 21,0°; Novembro: 22,0°; Dezembro: 25,0°.
A maxima temperatura observada foi de 28,5°, ás 3 horas e 10 minutos da tarde do dia 22 de Dezembro; e a minima de 8,5° ás 10 horas da manhã do dia 21 de Julho.
A média pressão barometra foi de 695m, 6m. 
Pouso Alegre- 1863 (Postal)
Acervo do MHMTT

-FIM-

Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.