O presente texto realiza uma análise da trajetória do
periódico O Pregoeiro Constitucional, publicado pelo deputado e padre
José Bento Ferreira Leite de Mello, em Pouso Alegre, visando atingir dois
objetivos bem claros. O primeiro deles é o de perceber como este padre político
discutiu os importantes acontecimentos que precederam à abdicação de Dom Pedro
I, tomando a imprensa como principal instrumento de vigilância das ações do
poder executivo e como tribuna para defesa de projetos de caráter liberal
moderado. O estudo das proposições federalistas e constitucionais apresentadas
por José Bento, bem como da maneira como estas ganharam novos significados num
curto período de tempo, leva-nos, por sua vez, ao nosso segundo e mais amplo
objetivo que é o de compreender a presença e as implicações do fenômeno de
reconfiguração e deslocamento semântico dos conceitos e vocabulários políticos
ocorrido nas primeiras décadas do século XIX brasileiro.
Palavras-chave: Império do Brasil, imprensa, religião,
vocabulário político, Estado / formas de governo
“Vivíamos
lá muito apartados, sozinhos olhando o mundo de longe, através de notícias
atrasadas. Com a nossa crédula naturalidade, falávamos das setenta e duas léguas
a que ficava Ouro Preto, distância que jamais se percorria naqueles tempos, mas
se media de povoado em povoado, simples direção no rumo norte, por onde se
poderia alcançar, ousando-o, a capital da Província. (...)
Viajava-se
tradicionalmente a pé, a cavalo ou de liteira carregada por mulas, quando se
tratava de conduzir velhos, crianças e doentes. Não possuíamos veículos de
transporte a não ser o desconjuntado trole do negociante Batista; afora ele, o
carro de bois, o carrinho de carneiros, a carroça do capitão Caetano Lopes,
puxada por um cavalo, única e memorável carroça existente no vastíssimo
município de Pouso Alegre! (...)
E a vila conservava imutável o seu ar de
abandono e de solidão, apenas agitada aos domingos, quando os roceiros
concorriam à missa e iam ao mercado, precisando vender os seus produtos para se
abastecerem nas lojas e nas vendas. Aos domingos o burgo se ajuntava e se
confundia, vivendo intensamente dentro do seu isolamento para, no dia seguinte,
recair na monotonia da pacata existência sob um céu azul, e repousar confiante,
debaixo das estrelas.
Fato nenhum da natureza perturbava a
harmoniosa calma da paragem. Nenhuma agitação inquietava o sossego de Pouso
Alegre, a não ser a contínua passagem das boiadas e porcadas, dos rebanhos de
cabras e carneiros, das manadas de éguas e de mulas – a multidão pecuária que
descia das ricas pastagens dos Campos de Caldas, de Alfenas, das serras do
oeste, e transpondo a cidade, tomava o rumo para a Barreira do sul, no alto da
Mantiqueira. (...)
06/05/1811: Nesta memorável data
o Padre José Bento Leite Ferreira de Melo toma posse da Matriz da nova Freguesia,
começando a existência oficial de Pouso Alegre.
06/05/1948: É
colocada a Pedra Fundamental da nova Catedral.
Assim o escritor pouso-alegrense Amadeu de Queiroz
(1873-1955) descreve a terra onde nasceu no final do século XIX:
“Entendia-se Pouso Alegre espalhada no dorso das três
colinas que descem longamente do norte e morrem nas ribas tortuosas do Mandú.
No tope da colina central, dominando a paisagem , ficava o cemitério com suas
taipas caídas em muitos lances, carcomidas noutros, onde os túmulos enegrecidos
se escondiam, sem epitáfios, no matagal das ervas bravas. (...).
Logo abaixo do cemitério, em chão
escavado, erguia-se a capelinha do morro, com o seu cruzeiro de pau fincado num
monte de pedras. (...); terreiro de alegria das crianças que corriam, saltavam
e rabiscavam nas paredes da capela, onde os grandes também deixavam lápis,
nomes, versos, queixumes, uma ou outra palavra torpe.Morro abaixo, estendiam-se
sucessivamente a extravagante e tortuosa Rua do Morro, o Largo do mercado e o
da Matriz, deserto de gente, arborizado de cinamomos e casuarinas, formando uma
aléia ramalhuda, fechada ao fundo pela velha igreja de taipas. Lá se levantava
o cruzeiro sombrio, fincado na terra, onde os penitentes da roça depositavam as
pedras votivas que conduziam na cabeça, acompanhando procissões. Depois a Rua
do Imperador, o Largo da Cadeia, e daí por diante, até à margem do rio,
desalinhada e agreste – a Rua da Ponte.
À esquerda e á direita, corriam
paralelas, outras duas apertadas ruas, com casas de um só lado, casas antigas,
de paredes lisas e caiadas, enfrentando os muros irregulares do fundo dos
quintais do Largo, cada um com o seu desengonçado portão. Como estas, as outras
ruas e travessas aparentavam abandono: cobertas de capim e de mato, sulcadas de
trilhos por onde se transitava, ou cortadas pelo rastro areento das enxurradas.
(...)
Na direção do sul, dilatava-se o vargedo
do Mandu, geralmente chamada Vargem, logradouro municipal, pastagem pública
onde se apascentavam confundidas as vacas da comunidade. (...)
Mais que gente, andavam os animais pelas
ruas e praças de Pouso Alegre. Mulas e cavalos querenciados subiam da Vargem
para o povoado, onde se espalhavam pastando o verde das ruas e becos
desabitados; cabras domésticas se ajuntavam no adro da igreja, à sombra
estendida das paredes; galinhas e, às vezes, porcos revolviam o lixo das casas
despejados pelos portões dos fundos. (...)
A paisagem campestre dos arredores, as
aves, frutas, flores, ervas e a criação, nos mantinham em contato íntimo e
permanente com a natureza, enlevados na plantação; por isso não nos passava
pela mente vender as frutas, nem as ervas, nem as flores: tínhamos por costume
a espontânea cortesia de mandá-las de presente aos nossos vizinhos, aos amigos
e aos parentes. (...)
Texto publicado na Revista Memórias de Pouso Alegre,
Museu Histórico Municipal Tuany Toledo, Pouso Alegre, 2010
O Museu Histórico
Municipal Tuany Toledo- MHMTT é um espaço dedicado à preservação e difusão de
um acervo rico para a história de Pouso Alegre e do Sul de Minas. A formação do
Acervo teve início em 1965, quando Alexandre de Araújo, preocupado com a
conservação da memória da cidade, realizou uma exposição de objetos na Casa
Vitale. Com a colaboração de vários membros dos diversos segmentos da sociedade
local, foi organizada uma mostra para comemorar o aniversário de 117 anos de
Pouso Alegre.
Casa Vitale- Acervo do Museu Hitórico Municipal Tuany Toledo
Em 1984, através
da Resolução 219-21.05.84, foi criada a “Galeria para Exposição de Fotos,
Documentos e Antiguidades de Pouso Alegre”. Em 1985, a Resolução 245- 12.08.85
criou a “Galeria Tuany Toledo”. Finalmente, a Resolução 368-02.04.90,
denominando “Museu Histórico Municipal Tuany Toledo”.
Galeria Tuany Toledo, Década de 90 - Acervo do
Museu Histórico Municipal Tuany Toledo
Uma nova estrutura
foi cedida ao Museu no ano de 2000, na Rua Adalberto Ferraz, com um espaço
amplo, podendo assim expor um número maior de objetos. Em 2007, foi incluído no
Cadastro Nacional dos Museus, tendo seus dados disponíveis para consulta
atravès do site www.museus.gov.br . Esse cadastramento no IPHAN (Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) visa a ampliar e fortalecer as ações
direcionadas ao campo museológico brasileiro. Atualmente estácadastrado no
IBRAN.
Museu Historico Municipal, 2000
Acervo do Museu Histórico Municipal Tuany Toledo
Em Janeiro de
2009, o Museu passa a ocupar um novo espaço anexo à Câmara Municipal, na
Avenida São Francisco, 320, sendo aberto para visitas e pesquisadores de
diversas áreas para a análise de problemáticas pertinentes a várias linhas de
pesquisa a que o Museu se dedica: Cotidiano
e Sociedade, Universo do Trabalho, História Política e outros. Conta ainda
com um acervo de mais de 4 mil unidades, entre objetos, iconografia e
documentação arquivística, dos séculos XIX e XX, eixo para a compreensão da
sociedade do Sul de Minas, a partir do estudo dos aspectos materiais da
cultura, com especial concentração na história de Pouso Alegre.