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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Imagens da cidade

Praça/Catedral, 1930
Acervo do MHMTT
Escola Normal, 1930
Acervo do MHMTT
Praça Senador José Bento, 1930
Acervo do MHMTT
Praça Dr. José Garcia Coutinho, 1940
Acervo do MHMTT
Hospital Regional Samuel Libanio, 1930
Acervo do MHMTT

O Batuira

Há muitos anos, desde que Pouso Alegre começou a ser gente, já na época em que os primeiros fiosinhos de barba lhe apontavam ao rosto, o primeiro salão de barbeiro que existia por estas paragens era o do Benedito, a quem, não sei por que cargas d’água, chamavam de Batuira.
Nunca hei de me esquecer dos cortes de cabelo que ele me fazia, quando ainda creança. O Batuira, com toda certeza, fez parte de alguma dessas intemeratas “bandeiras” que abriram caminho para a civilização, por que tinha a mania da fazer numerosos “caminhos” na cabeça de seus freguezes. Não me lembro se aquele sistema de corte era moda naqueles tempos ou se me ficava bem. Posso afirmar, somente, que o Batuira era o barbeiro de minha predileção.
Como todo Fígaro que se preza, o Benedito era de uma loquacidade de espantar. Conhecia os fatos mais recentes. Discutia tudo. Política, religião, bebidas e comidas. Sabia de tudo.
O seu salãosinho de 4ª classe, defronte á Estação, era o ponto de palestra (se a brigas, discussões, palavrórios desses que põem carmim na face das estatuas, se pode chamar “palestra”) de todos os desocupados da cidade. Não havia distinção de cor, nem de nacionalidade, nem de caráter, entre os frequentadores do Salão do Batuira. Reuniam-se, ali, as mais disparatadas individualidades. Desde o carroceiro boçal, até o bêbado brigão, acavalados nos bancos de madeira.
O Batuira, alem de exímio cortador de cabelos e dono de vários outros pergaminhos, era tido como maior conhecedor do bom famo e da boa “caninha”.
Quantas vezes, aparando-me os meus cabelos, empunhando sua navalha “banguela” (a única do salão), discutindo sobre as qualidades daquelas especialidades nacionais, não me fez suar frio de medo.
Certa vez, como me lembro!, um vendedor de fumo, acompanhado do pretendente á sua aquisição, procurou o Batuira para que opinasse sobre as boas qualidades daquele legitimo “Poço Fundo”.
O Batuira, como um perfeito técnico no assunto, cheirou o fumo diversas vezes, olhou para cima, alisou a palha, passou-a nos lábios, cuspio de lado, picou regular quantidade e fez o cigarro. Acendeu-o e pôs-se a fuma-lo. O vendedor alegrou-se pensando haver descoberto o motivo daquele sorriso.
-Por enquanto, o fuminho não deu gasto. Vou fumar mais um bocado, até a metade, por que o fuminho bom só se revela na metade do cigarro.
O salão, nesse dia, domingo, estava com excesso de lotação. Todos concentravam sua atenção no barbeiro, que continuava a fumar, enquanto o paciente freguês, sentado, rosto lambusado de sabão, espereva, resignadamente, o fim da experiência.
Chegado á metade do cigarro, o Batuira tirou-o da boca, pigarreou, e emitio sua abalisada opinião.
-É.... É... O fuminho não é ruim. Até que não. Só tem “um defeitinho”:- é fraco, catinguento e ruim de gosto...
Não é preciso acrescentar que o negocio morreu na metade do cigarro do Batuira...

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Hoje, o meu barbeiro predileto, vive por aí, com toda a curva dos anos no corpo, tremulo, implorando nos negócios a esmola de um pedacinho de fumo, não se incomodando com a qualidade.
Pobre, doente, está atacado de “delirium tremens”.

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Eu tenho para mim, que o bom Batuira, com suas mãos excessivamente tremulas, parece querer cortar os cabelos ao vento, recordando-se daquele passado tão bom do seu salãosinho de 4ª, que o tempo lh’o tirou e não quer devolver mais.

*Extraído do Jornal “O Pouso Alegre”, 12 de Fevereiro de 1934, J. Fernandes Filho.


“Histórias que não veem na história…”


Ligeiras crônicas, sobre alguns dos nossos mais interessantes tipos populares, que a história olvidou, mas que vivem, personagens e fatos, na memória e nos lábios daqueles que os conheceram.
As histórias heroicas, escritas a sangue, perduram enquanto a tinta estiver fresca... Têm a duração dos fogos de artifício.
As pequenas histórias que se seguem não tem o cenário lúgubre dos campos de batalha, nem a magnificência dos gabinetes. Processam-se no cenário humilde da vida, na realidade crua das ruas.
Nunca foram pintadas a óleo. Mas, estão impressas na rotina dos que olham a vida em todos os seus prismas.
Não fazem chorar, nem meditar. Fazem sorrir, somente. O sorriso está mais perto dos lábios, que a lagrima dos olhos. 
Leva menos tempo para o sorriso aflorar aos lábios, que a lágrima aos olhos.

*Extraído do Jornal “O Pouso Alegre”, 12 de Fevereiro de 1934.

Ao meu Brasil


Ao meu Brasil

Alma do coração- a sympathia,

E que o poeta adora e todo o humano,

Essa alma que a correr de anno em anno,

Bate às portas do heróe do novo dia.

É essa a estrella áurea que allumia,

O nobre coração de um soberano,

A quem o povo se ergue todo ufano,

Aclamando-o em delyrio todo dia.

Engrandecei na lucta, o heróe potente,

Que com sábia doutrina e eloquente,

Vos espalha pregando á humanidade.

E co’ esse peito amigo e poderoso,

Prégae ao meu Brasil tão magestoso,

Os sagrados princípios da verdade.

(João Beraldo, Fevereiro-1909)

*Extraído do jornal “A Cidade de Pouso alegre”, 07 de fevereiro de 1909.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre
Freguezia da Cidade (p. 105-108)

A tudo que dissemos em abono de Pouso Alegre, resta-nos acrescentar a excellencia do seu clima.
Baseando em dados officiaes, fornecidos pela Comissão Geographica de Limites, que aqui teve a sua sede perto de quatro annos, podemos asseverar que o clima de Pouso Alegre é um dos melhores do Sul de Minas.
Póde parecer á primeira vista, que durante a epocha das chuvas as enchentes dos rios a que acima nos referimos venham em desabono do clima da localidade; entretanto a observação tem mostrado que estas enchentes, que em outros logares sujeitos á mesma contingencia são causa de muitos males por occasião da vasante, aqui não tem produzido influencia sensível no estado sanitário.
As febres de mau caracter são aqui raríssimas.
Também não consta que a cidade em tempo algum fosse flagellada por qualquer epidemia.
A cidade, devido a sua topographia, é perfeitamente ventilada; nos dias de maior calor durante o verão há sempre uma viração agradável, renovando constantemente o ar.
Nessa epocha do anno, tanto as noites como as manhãs são muito frescas e agradáveis.
No inverno alguns defluxos e ligeiras bronchites vem perturbar o estado sanitário, atacando de preferência as crianças.
Segundo as observações da Comissão de Limites, o centro da cidade est
á a 825 metros acima do nível do mar, o ponto mais baixo a 310, e o mais alto a 887 metros.
As médias da temperatura durante os 12 mezes de 1896, com o thermometro á sombra, são as seguintes:
Janeiro: 23,5°; Fevereiro: 23,4°; Março: 22,9°; Abril: 20,4°; Maio: 16,3°; Junho: 16,3°; Julho: 14,1°; Agosto: 17,3°; Setembro: 20,0°; Outubro: 21,0°; Novembro: 22,0°; Dezembro: 25,0°.
A maxima temperatura observada foi de 28,5°, ás 3 horas e 10 minutos da tarde do dia 22 de Dezembro; e a minima de 8,5° ás 10 horas da manhã do dia 21 de Julho.
A média pressão barometra foi de 695m, 6m. 
Pouso Alegre- 1863 (Postal)
Acervo do MHMTT

-FIM-

Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre
Freguezia da Cidade (p. 104-105)

Não podemos calar os nomes de alguns cidadãos que, como José Bento, muito fizeram em pról da prosperidade de Pouso Alegre, são elles:
O cônego João Dias de Quadros Aranha, alma grande, caracter austero, coração magnânimo, onde só tinham guarida os sentimentos nobres e generosos.
Foram taes os actos de virtude e patriotismo que praticou durante a sua longa existência, que mereceu de seus concidadãos a mais elevada estima, as quaes viram no venerável sacerdote o typo sublimado do verdadeiro apostolo de Christo.
Desempenhou com intelligencia e critério diversos, inclusive o de deputado á assembléa geral.
O coronel Julião Florencio Meyer, honrado commerciante, muito bons serviços prestou á cidade e á causa publica no desempenho dos diversos cargos de que revestiu a confiança do governo e o voto popular. Sua pátria, a Bélgica, teve nelle um filho que soube honrar a terra que lhe foi berço, e que na pátria adoptiva, que amou com o fervor de um bom patriota, deixou um nome honrado ligado á importante família que aqui constituiu.
Dia a dia, Pouso Alegre conquistando mais um nome para os fastos de sua historia:- ainda ha bem pouco tempo daqui sahiu para occupar o fastígio do poder estadoal, o eminente mineiro e distincto clinico nesta cidade Dr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, cujos serviços e influencia política são sobejamente conhecidos por todos.
Padre José Dias de Quadros Aranha
Acervo do MHMTT

Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.

Muitas Histórias


Parte Histórica- Pouso Alegre

Freguezia da Cidade (p. 101-104)

Quer na imprensa, quer na tribuna, o padre José Bento tornou-se celebre; todas as vezes que se fazia ouvir da tribuna parlamentar, o auditório, suggestionado, applaudia o com enthusiasmo.
A este benemérito da pátria, a este brazileiro distincto, teve Pouso Alegre grande parte de sua prosperidade.
Mas a sorte avara quis afinal que este grande homem, viesse a ter um trágico fim, que cobriu de luto Pouso Alegre, e encheu de consternação a sua população!
Das Ephemerides mineiras, na data de 8 de Fevereiro de 1844, extrahimos o seguinte:
“Na tarde deste dia, e quando regressava á sua fazenda- cerca de dois kilometros da cidade, então Villa de Pouso Alegre- morre assassinado o senador Padre José Bento Leite Ferreira de Mello, nascido a 6 de janeiro de 1785 na villa que é hoje a cidade da Campanha.
O bárbaro attentado, a principio attribuido a inimigos políticos, foi na verdade determinado por questões suscitadas sobre propriedades de terras entre o senador José Bento e antigos protegidos seus, auctores do crime, um dos quaes era afilhado da victima.
Ferreira de Mello era filho do sargento-mór José Joaquim Leite Ferreira do Mello e de D. Escholastica Bernardina de Mello. Fez seus estudos em S. Paulo, residindo com o bispo Dom Matheus, e alli recebendo ordens sacras.
Creada a Freguezia de Pouso Alegre (1810), a cuja sede fez consideráveis serviços uteis ao embellezamento da povoação, tirou em concurso a respectiva vigararia collada, recebendo pouco depois também a nomeação de vigário da vara da comarca e mais tarde de cônego honorário da Sé de São Paulo, e o habito e commenda da Ordem de Christo.
Desde os prodromos do movimento nacional para a Independência, revelou suas idéas liberaes adiantadas,   trabalhando activamente para seu triumpho, o que lhe foi abrindo as portas das posições políticas. Foi eleito a 21 de Setembro de 1821 membro da primeira Junta do governo provisório em Minas e depois deputado á Assembléa Geral  nas três primeiras legislaturas e senador do Império, escolhido a 8 de Agosto de 1834 e tomando assento a 13 do mesmo mês na camara vitalícia. No anno precedente, e pela manhã de 23 de Março, tendo sido na véspera á noite deposto em Ouro Preto o governo legal por uma sedição militar, o vice-presidente da província e o padre José Bento, membro do Conselho do Governo, foram presos e levados para fóra da cidade por uma escolta de revoltosos, sendo soltos em Queluz pelo povo da localidade, onde aquella sedição não tivera echo.
Anteriormente (7 de Setembro de 1830), fundara o senador José Bento uma typographia em Pouso Alegre, então simples arraial, ahi publicando o Pregoeiro Constitucional, primeiro periódico que appareceu no Sul de Minas, e depois o Recompilador Mineiro, em ambos defendendo com energia e dedicação os princípios liberaes.
Sua attitude na revolução parlamentar da maioridade foi de mais salientes. Sendo um dos seis signatários do projecto para aquelle fim apresentado a 13 de Maio de 1840, foi elle quem, a 22 de Julho do mesmo anno, com vehemencia de suas enérgicas convicções, fallou ao povo de uma das janellas do senado, concitando-o para a victoria da medida anti- constitucional que seu patriotismo considerava no entanto salvadora da nação.
No movimento revolucionário de 1842, em Minas, sua co- participação foi menos efficaz e ostensiva. Não obstante, em nada diminuía a grande influencia que exercia no grêmio de seu partido e o prestigio que o cercava como chefe liberal dos mais considerados e influentes.
Homem de vontade forte, intelligente, activismo, partidista extremado, não fugiu á responsabilidade de sua posição, leal e franca em quaesquer circumstancias. Si possuisse instrucçao menos limitada, desenvolvendo proporcionalmente suas incontestáveis aptidões administrativas e parlamentares, ter-se hia engrandecido muito no sacrário político do seu tempo. Ainda assim, o nome senador José Bento Leite Ferreira de Mello figura de modo notavel nos anaes brazileiros, especialmente no decado que se conta de 1834 até o dia do seu trágico passamento.

Senador José Bento
Acervo do MHMTT


Fonte: OLIVEIRA, A. M. Almanack do Município de Pouso Alegre. Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1900.
*Escrito como no original.