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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Imagens da cidade

Rua Sao Pedro (atual Monsenhor Dutra)- entroncamento com a Com. José Garcia
Década de 40
Acervo do MHMTT
Enchente- Varzea
Acervo do MHMTT
Desfile de 07 de setembro- 1960- Av. Dr. Lisboa
Acervo do MHMTT
Antigo Colegio Diocesano- 1940
Acervo do MHMTT
Avenida Doutor Lisboa- 1940
Acervo do MHMTT

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Beijou a mão do Padre-Senador: Quatro anos mais velho que a cidade. – Conheceu os assassinos do Padre José Bento.- Monsenhor José Paulino foi pro Ceará. (Reportagem de Fernandes Filho)

Quando me disseram que existia na cidade um homem de 104 anos, lúcido e firme, cheguei a duvidar. Acostumado com o espetáculo diuturno da queda da arvore humana antes de ter ultrapassado meio século de existência, era de ficar espantando com a sobrevivência de uma criatura que já havia dobrado uma centena de anos e que se mantinha de pé, afrontando a lei sancionada pelos trópicos.
O São Tomé que vive dentro de nós todos impeliu-me á procura do Matusalém. E o vi e o toquei com estes olhos que a terra um dia hão de comer.
Camilo Antonio Felizardo
Preto. Nascido em Santa Rita do Sapucaí. Filho de africanos, da costa da África, vieram seus pais num daqueles cargueiros humanos que enchiam as noites de gemidos e angustias, cujos ecos existem vivos e terríveis nas estrofes imortais do vate baiano.
Carapinha branquinha como algodão. Olhos com a bruma seca do tempo, gastos de tanto uso. Rosto liso, sem uma ruga, como se estivesse vivendo uma outra infância. O cinema retrospectivo da memória funcionando perfeitamente, numa projeção clara, andamento regulado, sem um tropeço ou falha
As palavras lhe saem da boca centenária com a mesma facilidade com que brotam os sons de cordas vocais tangidas pelo vigor da idade.
Camilo Antonio Felizardo tem 104 anos no duro. No confronto das datas e dos fatos nós nos convencemos da sua longevidade.
Padre Zé Bento
O Padre José Bento era um rapagão bonito e desempenado, amigo de toda gente, trabalhador e piedoso. Gostava de tratar a terra, interessando-se sempre pelas plantações. Possuía um sitio perto da cidade e sempre ia vê-lo, montado no seu cavalo fogoso.
-Me lembro do Padre Zé Bento, montado no seu alazão, chamando a atenção de todo mundo. O Padre era muito importante.
Mas, o senador José Bento era um temperamento nervoso e vibrátil, causador da sua brilhante atuação na vida política de nossa terra e do país, como de sua morte em situação tão trágica.
O Assassinato do Padre José Bento
Uma questão de divisas de terras e de roças de milho entre o Padre José Bento e seus confrontantes, os irmãos Baltazar, Jacinto e Dionisio, estabeleceu uma surda mal-querença entre eles.
-Os três irmãos eram gente rústica, abrutalhada, pouco amiga da paz. Tramaram a morte do padre e numa tarde, quando o padre ia pro sítio, atiraram nele de tocaia. Deixaram o corpo estendido na estrada e desapareceram.
Baltazar foi morto pela policia, em Santa Rita do Sapucaí, quando atravessava a ponte. Dionisio fugiu para a província de São Paulo. Mas a justiça divina não falha, o Dionisio ficou morando naquela província e lá não arranjou família.
Um dia o homem brigou com a mulher e disse que ia fazer com ela o que tinha feito com o padre em Minas. A polícia, instigada pela mulher, descobre a coisa e recambia o Dionisio para a nossa cidade. O dia da chegada do prisioneiro foi tal qual um dia de festa. Toda gente queria ver o homem que tinha matado o padre-senador. E o homem que havia assassinado a figura mais importante da cidade voltava velhinho, doente, que dava pena. Dionisio morreu poucos meses depois de ter voltado para Pouso Alegre.
Dr. Lisboa- “Arma Santa...”
Dos médicos que clinicavam em Pouso Alegre, Camilo lembra de dois: Dr. José Antonio Freitas Lisboa e Dr. Francisco Silviano de Almeida Brandão.
-Doutô Lisboa era uma arma santa, meu filho. Eu passava quasi que o dia inteirinho na casa dêle, brincando com seu filho Lulú (Luiz Lisboa, mais tarde senador estadual, pai do Dr. Antonio de B. Lisboa ainda é vivo e reside em Ouro Fino).
E o preto Camilo fala demoradamente sobre a bondade do Dr. Lisboa, alma aberta á caridade, sempre pronto a levar o refrigério da sua ciência e da sua bondade aos doentes e aos sofredores.
-Me dissero que arrancaram o nome do doutô Lisboa cá da praça e puzero o nome de outro. Isso é uma ingratidão!
A voz do preto velho tem um tom de protesto. É que o Camilo não consente que se desrespeite a memória do seu amigo. Volta-lhe a calma quando lhe digo que a Câmara colocou de novo o nome do Dr. Lisboa na Avenida.
-Bem feito...
O Dr. Silviano Brandão era também um bom moço, caridoso, prestativo. Mas a política absorveu todas as atividades e o enleiou no seu rodamoinho.
-Dotô Sirviano viro senado, iguar Padre Zé Bento. Dr. Sirviano fez roça pros negro sê arforriado. A negrada achou bão, mas nêgo veio num fico munto satisfeito, não...
Um sorriso velhaco enrugou a pele esticada do preto centenário.
Mons. José Paulino
Camilo Felizardo tem palavras de saudade para a memória do Mons. José Paulino. Tanta bondade existia naquela alma que todos o tinham como santo.
-Padre Zé Paulino era tão santo que D. Néri mando ele pro Ceará, para indireitá aquele povo que era muito heréje e que tava morrendo de fome. E o padre custô mas botô as coisas de lá no eixo...
Tempos depois, o Mons. José Paulino voltou do Ceará, acabado pela moléstia que não demorou muito a levá-lo dentre os vivos.

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Continua a correr o celulóide gravado na memória do preto-velho Camilo.
Recorda-se da chegada festiva do Sr. Gabriel Osorio de Almeida, recém-formado pela Escola Politécnica “da Côrte”....
Mudou muito a fisionomia da cidade. Não é a mesma dos tempos da mocidade do Camilo Felizardo.
-A cidade de hoje pode tá mais importante, mas nunca que é mais bonita que a outra. Tá carçada de pedra, cheia de barúio de cmainhão, otomóve e charrete, mas os home são doferente pra piór...
Naquele tempo, as portas das casa tava sempre escancarada, nêgo veio ia até a cosinha, tomava seu cafesinho, picava uma lenha, dava um dedo de prosa e saia pelo mesmo lugá que entro. Os home oiava a gente cum amizade. Hoje, cruz credo, a gente vê a ambição e a mardade nos óio deles!
Onde é que a gente encontra hoje uma bondade como a do Dotô Lisboa, do D. Néri, do Padre Zé Paulino?
E, meneando a cabeça. 
-A cidade tá importante e mais barulhenta, num hái dúvida, mas nunca que é mais bonita.
Lá se foi o Camilo Felizardo, arrastando o fardo de seus 104 anos de existência. Ele conservou sua paixão pela cidade simples, sem artifícios, só com os enfeites da própria natureza. Os homens do seu tempo traziam as casas e os corações abertos. Os de hoje trazem a maldade e a ambição impressas nos olhos duros.
Que Felizardo é esse preto velho que chegou a alcançar os distantes tempos em que os homens eram bons!

Extraído do Jornal “A Cidade” 19/10/1948, p. 2 e 4
*Escrito como no original

Imagens da cidade

Avenida Doutor Lisboa- 1948
acervo do MHMTT
Avenida Doutor Lisboa
Acervo do MHMTT
Avenida Doutor Lisboa- Desfile do 8 RAM- 1935
Acervo do MHMTT
Pouso Alegre- Praça- Catedral 1970
Acervo do MHMTT
Avenida Doutor Lisboa- 1918
Acervo do MHMTT

Imagens da cidade

Pouso Alegre- Década de 30
Acervo do MHMTT
Avenida Doutor Lisboa- 1948
Acervo do MHMTT
Rua Comendador José Garcia- 1970
Acervo do MHMTT
Rua Coronel José Inacio- 1940
Acervo do MHMTT
Acenida Doutor Lisboa- 1940
Acervo do MHMTT

Marco do dia

13/06/1937: É lançada a 1ª pedra fundamental do Asilo São Vicente de Paulo na Rua Com. José Garcia, ao lado do Hospital Regional Samuel Libânio

terça-feira, 12 de junho de 2012

Imagens da cidade

Alto das Cruzes (Final da Getulio Vargas)- Década de 30
Acervo do MHMTT
Avenida Doutor Lisboa- 1940
Acervo do MHMTT
Avenida Doutor Lisboa- 1940
Acervo do MHMTT
Vista do Alto das Cruzes- 1930
Acervo do MHMTT
Avenida Doutor Lisboa- 1940
Acervo do MHMTT

segunda-feira, 11 de junho de 2012

História de Pouso Alegre- Jornal "A Cidade"

Freguezia da Cidade
“Pouso Alegre é sem dúvida alguma a mais bella povoação do Sul de Minas. O terreno, ligeiramente accidentado em que assenta a formosa cidade, a que não faltão planícies encantadoras nem pontos vista admiráveis; o rio Mandu, que outr’ora deu nome à localidade, e que hoje só por ella é conhecido; as bellas montanhas que fechão o horizonte, e mil deduções da natureza esplendida desta região, recomendão esta cidade tanto, como a belleza de suas ruas e praças, o capricho e asseio que se nota nas edificações, - indicando tudo que ali vive um povo intelligente e civilisado.
Na estação chuvosa as águas do Mandu, crescendo prodigiosamente, alagão suas margens até pontos muito afastados, semelhando um mar cheio de ilhas, dividido por um imenso aterro, sobre o qual está a estrada para São Paulo, que então reperesenta uma extensa ponte.
A enchente, que em regra é aterradora e triste, tem em Pouso Alegre mais sympathico aspecto, porque é com ella que a formosa cidade, mais faceira e mais garrida se mostra aos olhos enlevados dos que a contemplão.
O Mandu, depois de deixar a cidade, lança-se no Sapuchay-Mirim, piscoso rio que corre a menos de 2 kilometros confundindo-se depois com o Sapucahy-Guassú que passa a 6 kilometros, e em cujas águas transitão livremente barcas com capacidade superior a 1.000 arrobas e que fazem viagens entre diversos pontos dos municípios de Pouso Alegre, Itajubá, Alfenas, Machado e Campanha.
A pouca distância corre o Cervo, cujo Valle, notavelmente ubérrimo, é tido com um rico celleiro da freguezia.
Condições geographicas tão boas, unidas à excellentes terras de cultura da freguezia, não podem deixar de trazer em futuro breve, o adiantamento moral e material que a Cidade de Pouso Alegre, com razão, julga-se destinada a gozar.
Diz a tradição que foi um aventureiro, de nome João da Silva, quem primeiro residio nesta localidade, erguendo sua casa nas margens do Mandu e entregando-se à lavoura. Prosperando nesse trabalho, no fim do século passado, João da Silva deu o terreno preciso para a edificação de uma capella consagrada ao Senhor Bom Jesus. Construida essa igreja, para a qual concorrerão os visinhos de Silva, no ano de 1795, mais ou menos, o Padre Francisco de Andrade Melo, de Sant’Anna do Sapuchay, veio celebrar a 1.a missa, sendo então contratado para capellão particular.
Em 1797, o governador D. Bernardo José de Lorena, Conde de Sarzedas, que de São Paulo fora transferido para a Capitania de Minas Gerais, passou pelo nosso povoado, onde veio encontra-lo o Juiz de Fóra da Campanha o Dr. José Joaquim Carneiro de Miranda. Encantados pela esplendida belleza do lugar em que se achavão, conta-se que um daqueles cidadãos dissera que o lugar não se devia chamar Mandu, como então era conhecido, mas sim POUSO ALEGRE- e que dahi veio a denominação que o povo e a lei posteriormente sanccionarão.
Foi o Alvará de 6 de novembro de 1810 que elevou Pouso Alegre á categoria de freguezia- 21 annos depois á Villa pela Lei de 3 de Outubro de 1831, dando-lhe a lei n. 433, do anno de 1848, titulo de cidade.
A povoação possue 4 praças, 26 ruas e cerca de 400 casas, em geral bem construídas e asseiadas. Tem um bonito e grande theatro, denominado UNIÃO, com accomodação para 1.000 pessoas, tendo 75 camarotes, platéa com cadeiras e bancos, pertencente a uma associação de homens intelligentes, que nelle tem  levado á scena trabalhos importantes, com excellente desempenho.
Filhos de Pouso Alegre que seguirão estudos superiores: o Dr. Grabriel Osorio de Almeida, formado na Escola Polytechinica, Adalberto Dias Ferraz da Luz, matriculado na Faculdade de Direito da cidade de São Paulo, Josino Alcantara de Araujo, no 2° anno, e Luiz Candido da Rocha no 4°.
-A cidade possue uma typographia na qual se publica uma folha hebdomadária intitulada Livro do Povo, de que é principal redactor o illustrado cidadão Luiz de Almeida Queiroz. Já nessa cidade, por occasião da fundação do Imperio, se havia publicado o PREGOEIRO CONSTITUCIONAL, e foi então que em Pouso Alegre, primeiro lugar do Sul de Minas que teve imprensa, se imprimio pela primeira vez no Imperio o projecto de nossa constituição política, que ainda hoje é conhecido pelo nome de CONSTITUIÇÃO DE POUSO ALEGRE. Na cidade existe um gabinete de leitura, fundado por alguns intelligentes moços, e onde são encontradas obras de merecimento”.


Extraído do Jornal “A Cidade” 19/10/1948, n. 16, ano I
*Escrito como no original