Há muitos anos, desde que Pouso Alegre começou a ser gente, já na época
em que os primeiros fiosinhos de barba lhe apontavam ao rosto, o primeiro salão
de barbeiro que existia por estas paragens era o do Benedito, a quem, não sei por
que cargas d’água, chamavam de Batuira.
Nunca hei de me esquecer dos cortes de cabelo que ele me fazia, quando
ainda creança. O Batuira, com toda certeza, fez parte de alguma dessas
intemeratas “bandeiras” que abriram caminho para a civilização, por que tinha a
mania da fazer numerosos “caminhos” na cabeça de seus freguezes. Não me lembro
se aquele sistema de corte era moda naqueles tempos ou se me ficava bem. Posso
afirmar, somente, que o Batuira era o barbeiro de minha predileção.
Como todo Fígaro que se preza, o Benedito era de uma loquacidade de
espantar. Conhecia os fatos mais recentes. Discutia tudo. Política, religião,
bebidas e comidas. Sabia de tudo.
O seu salãosinho de 4ª classe, defronte á Estação, era o ponto de
palestra (se a brigas, discussões, palavrórios desses que põem carmim na face
das estatuas, se pode chamar “palestra”) de todos os desocupados da cidade. Não
havia distinção de cor, nem de nacionalidade, nem de caráter, entre os
frequentadores do Salão do Batuira. Reuniam-se, ali, as mais disparatadas
individualidades. Desde o carroceiro boçal, até o bêbado brigão, acavalados nos
bancos de madeira.
O Batuira, alem de exímio cortador de cabelos e dono de vários outros
pergaminhos, era tido como maior conhecedor do bom famo e da boa “caninha”.
Quantas vezes, aparando-me os meus cabelos, empunhando sua navalha “banguela”
(a única do salão), discutindo sobre as qualidades daquelas especialidades nacionais,
não me fez suar frio de medo.
Certa vez, como me lembro!, um vendedor de fumo, acompanhado do
pretendente á sua aquisição, procurou o Batuira para que opinasse sobre as boas
qualidades daquele legitimo “Poço Fundo”.
O Batuira, como um perfeito técnico no assunto, cheirou o fumo diversas
vezes, olhou para cima, alisou a palha, passou-a nos lábios, cuspio de lado,
picou regular quantidade e fez o cigarro. Acendeu-o e pôs-se a fuma-lo. O
vendedor alegrou-se pensando haver descoberto o motivo daquele sorriso.
-Por enquanto, o fuminho não deu gasto. Vou fumar mais um bocado, até a
metade, por que o fuminho bom só se revela na metade do cigarro.
O salão, nesse dia, domingo, estava com excesso de lotação. Todos
concentravam sua atenção no barbeiro, que continuava a fumar, enquanto o
paciente freguês, sentado, rosto lambusado de sabão, espereva, resignadamente,
o fim da experiência.
Chegado á metade do cigarro, o Batuira tirou-o da boca, pigarreou, e
emitio sua abalisada opinião.
-É.... É... O fuminho não é ruim. Até que não. Só tem “um defeitinho”:-
é fraco, catinguento e ruim de gosto...
Não é preciso acrescentar que o negocio morreu na metade do cigarro do
Batuira...
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Hoje, o meu barbeiro predileto, vive por aí, com toda a curva dos anos
no corpo, tremulo, implorando nos negócios a esmola de um pedacinho de fumo, não
se incomodando com a qualidade.
Pobre, doente, está atacado de “delirium tremens”.
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Eu tenho para mim, que o bom Batuira, com suas mãos excessivamente
tremulas, parece querer cortar os cabelos ao vento, recordando-se daquele
passado tão bom do seu salãosinho de 4ª, que o tempo lh’o tirou e não quer
devolver mais.
*Extraído
do Jornal “O Pouso Alegre”, 12 de Fevereiro de 1934, J. Fernandes Filho.
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